O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), através de seu Comitê Mineiro, promoveu o lançamento de duas publicações, dia 07/04/2006, em Belo Horizonte, a revista "MidiaComDemocracia " e a cartilha "Como domar essa tal de mídia?", dentro do 3o. Encontro de Comunicação da Fenajufe - Federação Nacional dos Trabalhadores do Poder Judiciário e do Ministério Público da União.

Dentre as brilhantes colocações que foram feitas pelos convidados, vale a pena destacar uma, pela sua capacidade de demonstrar o sentimento que vem tomando conta da parcela privilegiada da sociedade que tem conhecimento do processo de digitalização da radiodifusão (rádio e TV) no Brasil, ainda que tardio.

Carlos Antônio Ferreira, Coordenador de Comunicação da Fenajufe e Presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário Federal do Estado de MG (Sitraemg), foi extremamente habilidoso em produzir a síntese que apus por título desta matéria. A lógica proposta por ele se baseia no fato de que o próprio governo brasileiro, através de seu ministro Hélio Costa, cai em contradição com a propaganda oficial de que o melhor do Brasil é o brasileiro, ao procurar um sistema estrangeiro, mais exatamente o japonês, defendido pela Rede Globo, cujos laços com o ministro são notórios e muito bem conhecidos.

Eu não acredito nesta publicidade, por sua lógica ufanista, bairrista e provinciana. Mas considero que ela é extremamente útil para o caso em pauta. Estou certo que o melhor da Argentina são os argentinos. O melhor de Uganda são os ugandenses. E o melhor da Papua-Nova Guiné é o povo que reside ali, etc., dentro da visão que o ser humano é melhor que qualquer matéria bruta ou animal, apesar de estar destruindo tudo que não seja feito a sua imagem e semelhança. Então, talvez devamos ser mais precisos e afirmar que o melhor de qualquer país são alguns poucos exemplares de seus habitantes. Ou muitos, como queira. Mas isto é outra história!...

Por outro lado, como o próprio nome indica, buscamos um Sistema Brasileiro de TV Digital. Não é nosso objetivo ter um sistema japonês, europeu ou estadunidense (americano ou norte-americano, para os que repercutem ingênua ou conscientemente a megalomania "yankee").

Imagino também uma caricatura, com Hélio Costa, na qualidade de um juiz de futebol, colocando a bola na marca do pênalti, para o Lula chutar. O Presidente está vestindo a camisa 10 de nossa seleção, óculos escuros e bengala, como convém a quem não enxerga nada que acontece sob sua bem aparada barba. Atenção! Está dentro da área brasileira, com nossos jogadores apontando para o outro lado do campo, gritando: "Não chuta, não, que é gol contra, companheiro! !!"

Os jogadores da seleção japonesa, com propaganda "Globo, tudo a ver!" na camisa, esfregam as mãos ansiosos e com um discreto sorriso maldoso nos lábios. É bom ressalvar que esta idéia foi originalmente defendida por Carolina Ribeiro, Diogo Moysés e João Brant, integrantes do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, à qual adicionei meu toque pessoal, sugerindo sua tradução em formato visual. [ http://www.midiaind ependente. org/pt/blue/ 2006/02/346388. shtml ] Até o momento, apesar de minha insistência, não consegui quem pudesse dar forma a esta proposta...

Dentro deste quadro de reações criativas à ditadura nos meios de comunicação, na política e na economia, surgiu também o Cordel da TV Digital, em texto, áudio e vídeo, digno de ser divulgado para a população em geral, tendo em vista sintetizar de forma lúdica e simples um assunto de grande complexidade e relevância, permitindo melhor palatabilidade junto aos nossos 74 % de analfabetos e semi-analfabetos em nosso idioma, bem como aos 20 % de analfabetos políticos plenamente conscientes das possibilidades da flor do Lácio. Texto: ao final deste. Áudio: http://brasil. indymedia. org/media/ 2006/03// 347219.mp3 Vídeo: http://www.midiaind ependente. org/pt/blue/ 2006/03/348365. shtml

Agora que Hélio Costa já assinou acordo com os japoneses, resta a nós tentarmos abrir os olhos do Presidente e dos 800.000 membros do PT que são responsáveis diretos pelo que ocorre em seu partido e pelo gol contra que estão prestes a fazer.






1 - O cordel da TV digital
02/03/2006 | Luciana Rabelo (*) Observatório da Imprensa
http://observatorio .ultimosegundo. ig.com.br/ artigos.asp? cod=370IPB004

Brasileiros atenção
pro que está acontecendo!
O País está vivendo
momento de decisão.
A nossa televisão
tá prestes a ser mudada,
e pode ser melhorada
se o povo se unir
e agindo exigir
TV democratizada.

Eu vou tentar explicar!
O Brasil tem que escolher
qual modelo de TV
deverá ele implantar
para digitalizar
a forma de transmissão
em nossa televisão.
Se escolhermos direito
será o passo perfeito
pra democratização.

É importante saber
que é pública a concessão
de rádio e televisão.
E se é assim por que
só tá na mão de um poder
e não nos braços do povo?
Mas pra nós sobra o estorvo
de não poder se escutar,
de não poder se mostrar
porque eles cortam o novo.

Com a TV digital,
em um mesmo equipamento,
haverá recebimento
de um tal multicanal,
pois em um mesmo sinal
caberá quatro canais
que abertos e plurais
serão meios de expressão,
meios de transformação,
das misérias sociais.

Quem internet não tem,
nem sabe o que é e-mail,
desfrutará desse meio
e outras coisas também,
pois a tal TV contém
tudo isso reunido,
bastando ser escolhido
o modelo ideal
pra inclusão social
do nosso povo oprimido.

É a chance da maioria
poder usar sua voz.
É o momento de nós
na mídia fazer poesia,
resgatar cidadania,
ecoar nossos anseios
gritar nossos aperreios
pro mundo todo escutar
e podermos transmutar
esses gritos em gorjeios.

Produção independente
ganhará devido espaço
e dará o grande passo
de enfim plantar semente
de uma programação decente,
bem mais regionalizada,
bem mais diversificada,
difusora de culturas,
livre de qualquer censura
a nada mais amarrada.

Mas essa realidade
tão sonhada por a gente
depende do presidente
reagir com mais verdade.
E nós, a sociedade,
entrar nessa discussão.
Que é nossa a televisão!
O ar, as ondas, a terra!
E só o que nos emperra
é tanta concentração.

O Governo Federal,
muito mal representado,
tem Ministro de Estado
teu empresário boçal.
E a TV digital
importante instrumento
para o desenvolvimento
corre o risco de ficar
como sempre teve e tá
nas mãos de um poder nojento.

O tal ministro citado,
que se chama Hélio Costa,
de fato somente aposta
no monopólio privado,
neste empresariado
que recebeu concessão
de rádio e televisão
e quer se perpetuar
o único a mandar
na nossa programação.

Três modelos são usados
em países estrangeiros.
Falta agora o brasileiro
que já vem sendo estudado,
mas não é incentivado
pelo ministro Hélio Costa
que com uma conversa bosta
"só que saber da imagem"
e do que traz de vantagem
o comércio de resposta.

Hélio já quer escolher
o modelo do Japão.
E nós, a população,
queremos compreender
por que não desenvolver
um modelo brasileiro
e trocar com o estrangeiro
a nossa experiência?
É preciso paciência
não pode ser tão ligeiro.

Nossa tecnologia
poderá desenvolver
um modelo de TV
que nos dê soberania,
impulsione a economia
pra benefício geral
e a política industrial
tomará um novo impulso,
mas é preciso ter pulso
pro sonho virar real

E a nossa rádio querida
um meio tão genial?
Também vai ser digital,
mas já tá sendo ferida
por decisão desmedida
que em teste colocou
um modelo de cocô
lá dos Estados Unidos
que precisa ser banido
extirpado com ardor.

O tal modelo testado
pelas grandes emissoras
parece uma vassoura
varrendo o nosso prado
querendo-nos afastados
do espectro radiofônico,
do nosso poder biônico,
de transportar nosso tom
aos ares e a Poseidon,
num ato lírico sônico.

Nossa comunicação
tá é toda atrapalhada
as leis já não valem nada,
é grande a concentração.
Os meios de produção,
são os mesmos que transmitem,
só o que os donos permitem
já que muito é censurado
e a gente fica obrigado
A receber o que emitem

Eles querem capital,
nada mais lhes interessa,
e vêm com uma conversa
de que querem o bem geral.
Mas só o comercial
de fato os movimenta,
e a gente não mais agüenta
tão grande desigualdade,
tão louca sociedade,
que tanto nos atormenta.

A discussão é política,
técnica e social
e nos é fundamental
uma visão mais holística,
pois não é só estatística
é cultura, educação
e nossa legislação
tem que ser remodelada
pra ficar mais adequada
à nova situação.

É hora de acordar
pois a comunicação
é troca, é interação.
Não dá mais para ficar
da forma como está
nas mãos de uma minoria
que defende a hegemonia
de cruéis monstros Globais
que se mantêm voraz
roubando nossa fatia.

Gente, comunicação
é um direito humano!
Não é somente um cano
de passar informação.
É forma de comunhão,
forma de sobrevivência,
de expressar nossa essência,
de viver com liberdade,
com mais naturalidade
e também mais consciência.

(*) Jornalista e poeta, Recife