segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Um congresso cinco estrelas para jornalistas

Enquanto o povo brasileiro luta para retomar a Vale, por meio da campanha "A Vale é nossa", a FENAJ fica com o rabo preso com o capital internacional ao receber financiamento espúrio. Paulo Miranda

Um congresso cinco estrelas para jornalistas

Vale e Petrobras financiam 33º encontro da Fenaj em São Paulo, mesmo assim, taxa de participação chega a R$ 400,00

Vale e Petrobras financiam 33º encontro da Fenaj em São Paulo, mesmo assim, taxa de participação chega a R$ 400,00

22/08/2008


Mário Augusto Jakobskind


A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) está realizando, em São Paulo, desde o dia 20, o 33º Congresso Nacional dos Jornalistas. Com término previsto para o dia 24, o encontro, que tem como tema central o “Jornalismo, o Mundo do Trabalho e a Liberdade de Imprensa” acontece no Novotel Jaraguá,rua Martins Fontes, 71, bairro Bela Vista.


Este informe sobre o evento poderia se ater a essas considerações se não fossem alguns fatos que demonstram que a direção da entidade dos jornalistas e mesmo alguns sindicatos da categoria têm uma visão distorcida sobre a própria realidade que vive hoje os jornalistas de todo o país. E, como não poderia deixar de ser, esse posicionamento se reflete na forma de agir da própria direção da entidade.


O Congresso, que poderia ser representativo de todas as faixas de jornalistas e mesmo estudantes de comunicação, não o será. Participam como observadores apenas os sindicalizados que se dispuseram a pagar uma taxa de R$ 300,00. A taxa para os não-sindicalizados foi de R$ 400,00. Para os delegados que representam os sindicatos, de R$ 220,00. Para os estudantes de comunicação pré-sindicalizados, R$ 150,00, e de R$ 300,00, para os não pré-sindicalizados.


Vale e Petrobras

Os organizadores do evento, cuja abertura contou com a presença do ministro Hélio Costa, das Comunicações, e do ministro do Trabaho, Carlos Lupi, alegam que o pagamento é necessário para cobrir as despesas do congresso, que tem o apoio de 13 empresas, privadas e públicas, entre as quais a Petrobrás e a Vale do Rio Doce (hoje, Vale).

Na verdade, nada foi feito para que se reduzissem os custos. Escolherem um hotel cinco estrelas, entre outras coisas. Quando poderiam ter conseguido o espaço de alguma universidade pública para abater as despesas.


Como se não bastasse, ao ser questionada por jornalistas que firmaram um abaixo-assinado criticando o valor alto da inscrição, a direção da Fenaj justificou os gastos como necessários e, ainda por cima, acusou os críticos de “eleitoreiros”.


Na verdade, na prática a direção da Fenaj alija a maioria dos profissionais de imprensa brasileiros que recebem salários baixos. Para se ter uma idéia, no interior do Estado do Rio, por exemplo, a média salarial alcança R$ 600,00, o que não deve estar muito distante do interior de outros Estados da federação. E isto, diga-se de passagem, num setor em que o patronato obteve taxas de lucros das maiores da história, comparável proporcionalmente aos do capital financeiro.


Delegados questionáveis

Mas se o leitor pensa que as críticas se resumem às questões mencionadas, engana-se. A forma com que foram escolhidos os delegados representantes em alguns sindicatos é no mínimo questionável. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro nem chegou a realizar uma assembléia propriamente dita. Ou seja, os representantes foram escolhidos na calada da noite sem que os associados se manifestassem sobre o critério das escolhas ou muito menos sugerissem indicações de jornalistas não-vinculados à diretoria para representar o Rio no congresso em São Paulo.


Nota preconceituosa

Não é à toa que a elitista direção da Fenaj e a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Pará protagonizaram um episódio, que valeu inclusive uma nota oficial de ambas entidades de teor tipicamente preconceituoso contra os movimentos sociais.


Simplesmente, a Fenaj criticou duramente uma manifestação de integrantes de oito entidades, dentre as quais o MST, Via Campesina, Fórum em Defesa das Rádios Comunitárias, Consulta Popular e Marcha Mundial de Mulheres, realizada em um congresso de jornalistas do Pará.


Apesar de a nota da Fenaj e do Sinjor-PA afirmar que “é preciso deixar claro que não somos contra protestos, desde que ocorram em locais apropriados”, o simples teor da nota anula o que foi dito. Não houve nenhuma agressão a quem quer que seja, como erroneamente afirmam as respectivas entidades, mas apenas uma manifestação legítima que poderia ter ocorrido em que qualquer evento político.


A crítica da Fenaj e do Sinjor-PA se deve ao fato de que no momento da manifestação uma editora local da Rede Globo, Lúcia Leão, deveria falar, o que foi considerado um “desrespeito”.


Não é o que pensa uma parcela expressiva dos jornalistas brasileiros. No 1º Congresso de Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, foi aprovada, por unanimidade, moção em que os signatários concordam com manifestações dos movimentos sociais contra a manipulação da informação e entendem que um congresso de jornalistas é, sim, um fórum apropriado para este tipo de manifestação.


É importante que não apenas os jornalistas sejam informados sobre os fatos mencionados, como a opinião pública saiba que na luta pela democratização da mídia é preciso que os próprios jornalistas se mobilizem para evitar que as suas representações sejam elitizadas. Afinal, como diz o ditado popular, o uso do cachimbo faz a boca torta. Seja onde for.


(*) jornalista, do Conselho Editorial do Brasil de Fato

Nenhum comentário: