quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Mineradora desapropria casas na Vila Paciência e na Vila Cisne, vizinhas das minas onde está investindo R$ 1,2 bi

Estadão, 22.09.2008

Vale avança nos bairros de Itabira, onde nasceu

Mineradora desapropria casas na Vila Paciência e na Vila Cisne, vizinhas das minas onde está investindo R$ 1,2 bi

Eduardo Kattah, ITABIRA

Quando a Vale foi privatizada, há pouco mais de uma década, os moradores de Itabira, cidade localizada a 110
quilômetros de Belo Horizonte, temeram por seu futuro. Muitos diziam que as minas de ferro estavam se esgotando
e a empresa poderia deixar a cidade, esvaziando sua principal atividade econômica.

Hoje, Itabira vive uma situação oposta. Com a onda de investimentos em mineração, a cidade voltou a ser a maior
exportadora de Minas Gerais e discute um novo problema: quais os limites para o avanço da Vale na cidade onde
foi criada, em 1942.

Um exemplo desse novo momento de prosperidade está na recente iniciativa da mineradora de negociar a
desapropriação, mediante indenização, de quase 200 famílias que residem em dois bairros (Vila Paciência e Vila
Cisne) localizados bem próximos da mina do Cauê.

A Vale abriu negociação para comprar 193 casas, incluindo imóveis de médio e alto padrão e alguns bem simples -
situados a poucos metros de uma linha férrea da mineradora.

Os moradores reclamam que os imóveis sofrem os efeitos da atividade de mineração, com rachaduras e outros
problemas em decorrência das explosões.

De acordo com André Flores, gerente de Planejamento e Aquisições da Vale, a intenção é criar na região um
"cinturão verde" que amorteça os efeitos da mineração na cidade.

Segundo o sindicato dos mineradores de Itabira - Metabase - a Vale "avança" sobre a cidade desde as décadas de
1970 e 1980, quando algumas comunidades precisaram ser desapropriadas em razão da expansão das minas Conceição
e do Cauê.

A atual negociação, contudo, é considerada inédita pela mineradora.

"As outras minas (da Vale) não estão tão próximas aos municípios como Itabira. É o primeiro processo de
negociação amigável com uma comunidade", disse Flores, que não revela detalhes das negociações.

Para o Metabase, o projeto evidencia o novo ciclo de expansão da Vale no município. "Daqui a pouco a cidade
terá de mudar de lugar", exagera Carlos Borges, diretor do sindicato.

A empresa vai investir R$ 1,2 bilhão em Itabira entre os anos de 2008 e 2012 para revitalizar as minas. No
mesmo período, toda o Quadrilátero Ferrífero, onde fica Itabira, receberá investimentos de R$ 15,4 bilhões,
incluindo Brucutu, na cidade vizinha de São Gonçalo do Rio Abaixo, a maior mina do mundo em capacidade inicial
de produção.

REVISÃO DE JAZIDAS

Em meados de 2003, a Vale anunciou um estudo geológico que mostrava que as jazidas de Itabira eram 68% maiores
do que as estimativas anteriores. Na época, foi noticiado que as reservas foram calculadas em 1,13 bilhão de
toneladas, quase o dobro das 677 milhões de toneladas previstas anteriormente. Hoje, a expectativa da Vale é
que a exploração em Itabira dure mais 70 anos.

A reavaliação das jazidas veio acompanhada da forte alta do preço do minério, que refletiu o crescimento da
demanda internacional. A alta do preço tornou economicamente atraente a exploração de rochas com menor teor de
ferro.

Essas notícias dissiparam o clima de apreensão gerado em Itabira depois da privatização da companhia, em 1997,
com a previsão que a exploração do complexo de minas chegaria à completa exaustão em 2025.

Há pelo menos três anos, o município que estampa o título de "Cidade do Ferro" em sua bandeira - como definiu o
poeta e filho mais ilustre, Carlos Drummond de Andrade - figura no topo das cidades exportadoras de Minas.
Conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, de janeiro a agosto de 2008, as exportações a partir de
Itabira somaram US$ 2,2 bilhões, um crescimento de 54,85% em relação ao mesmo período de 2007.

Após a drástica redução de postos de trabalho após a privatização, a Vale retomou nos últimos anos as
contratações e atualmente emprega cerca de 7,2 mil pessoas na cidade - de 105 mil habitantes. Para o ano de
2009, a estimativa é que sejam abertas 800 vagas.

'Quando dá um foguinho, a casa balança toda, trinca tudo'
Moradores reclamam dos efeitos da mineração e negociam o valor das indenizações com a Vale

Eduardo Kattah, Itabira

Jacinto Evaristo Costa, de 67 anos, ainda reluta em deixar a casa simples, herdada do pai, onde mora há 55
anos, na Vila Paciência, em Itabira (MG). "Vontade não tenho, mas a mina está muito agarradinha. Quando dá um
foguinho (explosões), a casa balança toda, trinca tudo", reclama. Ele afirma que já recebeu oferta de R$ 120
mil da Vale pelo imóvel, de seis acanhados cômodos, e dois barracões nos fundos.

"É pouco demais", diz Costa, receoso de não encontrar outro local para morar. "Não pensei ainda para onde ir.
Com essa história, o imóvel em Itabira encareceu muito. Todo mundo está de olho grande."

Vizinho de Costa, o comerciante Carlos Roberto Fernandes, de 50 anos, não tem do que reclamar. Há dois anos ele
pagou R$ 72 mil por uma casa de 234 metros quadrados de área construída.

Recentemente, acertou com a Vale a venda do imóvel por R$ 285 mil. "Já comprei sabendo que um dia ou outro
teriam de indenizar esse pessoal."

Outro relato comum entre os moradores é em relação às "nuvens de poeira" que costumam cobrir a região. "A
poeira come toda a cidade, não podemos ter persiana, cortina...", disse uma moradora da Vila Paciência, que
pediu para não ser identificada porque ainda negocia com a Vale. Na residência confortável da família, várias
trincas estão visíveis.

"Nossa casa nunca esteve à venda, mas já não estamos nem ligando de ir embora. O terreno aqui está cedendo.
Quando dinamita, tudo balança. Por isso não tem um quadro na parede."

Responsável por conduzir as negociações, o gerente de Planejamento e Aquisições da Vale, André Flores, afirma
que o projeto surgiu de uma demanda da própria comunidade, embora moradores tenham sido surpreendidos com a
notícia publicada na imprensa local em janeiro deste ano.

Segundo Flores, o projeto "não tem data para terminar". "É um processo de negociação amigável, é um processo
privado, não existe nenhum instrumento judicial. Não forçamos essas aquisições."

Mas há quem se sinta obrigado a deixar a região. Elismar Dias Lage, de 30 anos, administra com o pai uma
mercearia, conjugada com um açougue, na Vila Paciência. A venda da residência da família está sendo negociada
com a mineradora, mas o comércio ficou de fora do projeto.

"Eu tinha plano de crescer, mas como vou investir na loja se a tendência é reduzir a clientela? Vou ter de
começar do zero. Eu não tinha intenção de sair do bairro onde nasci, mas agora me sinto obrigado", diz Elismar
Lage.

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