sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A Rádio Favela, a TVC-BH e o diploma de jornalista


Por Heitor Reis 17/10/2008


A Rádio Favela e a TV Comunitária são dois grandes celeiros para formação de profissionais! Foco de teses de mestrado e doutorado em comunicação. Acadêmicos que futuramente desprezarão como incapazes de exercer tal profissão aqueles que graciosamente lhes transmitiram uma arte conquistada com muito sangue, suor e lágrimas.


Ontem, participei do primeiro evento da Semana da Democratização da Comunicação em Belo Horizonte. [ http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/10/430912.shtml ]


Assistimos um curto vídeo sobre a TV Comunitária de Belo Horizonte, que começou em sinal aberto, mas não resistiu às pressões descumunais que sofre e teve de se contentar com o cabo apenas. Afinal, na TV, tudo é mais competivo e ainda pior que no rádio. Depois, fomos brindados com o filme Uma Onda no Ar, de Helvécio Ratton. Trata-se de uma versão antecipada de A Tropa de Elite e Cidade de Deus, com enfoque na luta racial e de classes que ocorre diariamente entre a turma do morro e a turma do asfalto, com o Estado e a polícia defendendo os interesses da minoria rica. Por outro lado, encontramos extremos negativos e positivos em ambas categorias.


Na seqüência, foram homenageadas as duas emissoras, com os tradicionais discursos de sempre, estimulados pela discreta e descontraída coordenação do presidente do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais, Rogério de Oliveira Silva.


Misael Avelino dos Santos, presidente da Rádio Favela não compareceu, como de costume. Nem Nerimar Wanderley Teixeira, o vice. Eles são arredios à certas coisas "do asfalto" como reuniões, homenagens, palestras e discursos, naturalmente fruto da objetividade, pragmatismo e concentração na praxis, que os colocou em uma reportagem de capa em The Wall Street Journal.


Foram representados por José Guilherme Castro que atuou durante anos como secretário de comunicação da emissora. Foi um dos fundadores da TV Comunitária (TVC-BH), Coordenador Nacional de Comunicação da Abraço - Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária e Secretário Geral do FNDC - Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. Hoje está militando nas Brigadas Populares e no Sistema Caracol de Comunicação, com duas rádios e uma TV em sinal aberto.


O pequeno grande Didi, Doutor Didi, batizado originalmente como Edivaldo Faria, juiz aposentado, presidente da TVC e da ABCCom - Associação Brasileira de Canais Comunitários relembrou os velhos tempos, estimulado pelo documentário que registrou cenas de seu passado e pelos depoimentos em vídeos de quem participou de sua maratona para construir a melhor TV a cabo do Brasil. Doutor Didi poderia ter dito que o cavalo passou arriado e ele o montou...


Mas, a imagem que traduz melhor sua história é que ele literalmente foi colocado em cima do cavalo arriado, resistindo a dimensão do desafio que percebia pela frente. Um valente que pega o boi pelo chifre sabia que o fracasso sempre foi a regra geral de quem luta para construir o novo. Acabou aceitando, por pressão dos que estavam fundando a TVC, a quem ele, como advogado foi ajudar, suportou um ano de discussões absurdas até surgir um estatuto que agradasse a todos e saiu presidente.


"A culpa de tudo isto é do José Guilherme!", a quem chama carinhosamente de louco, atributo também dedicado pejorativamente à genialidade e à geniosidade dos que estão décadas à frente de seu tempo, tentando superar a dificuldade de traduzir para os normóticos a grandiosidade e a complexidade da revelação que intuem ou captam do futuro. Verdadeiros livros de Apocalipse ambulantes!


Nosso fotógrafo, dramaturgo, comunicador popular e artista visual Fernando Barbosa expôs as imagens que sua lente vem coletando sobre a história da Rádio Favela, decorando com elas o auditório que leva o nome do honorável primeiro presidente do CRP-MG, Ruy Lage Lopes. "A Imagem da Voz".


Após estas poucas horas de camaradagem, eu vinha chacoalhando numa sauna sobre rodas, fruto da "bela" administração PTucana de Belo Horizonte, cujas minúsculas aberturas das janelas são insuficientes para ventilar internamente o veículo. Lamentava estar tão distante dos micro-ônibus com ar condicionado de Porto Alegre (um real mais caro que os comuns) e de uma parte dos grandes que também oferecem este conforto pelo mesmo preço do convencional. Quase meia-noite, mas a temperatura insistia em se igualar à de meio-dia... Deve ser o efeito estufa, o aquecimento global, a crise global do meio-ambiente e das bolsas de valores podres!


Apesar do desconforto ou por causa dele, com meus dois últimos neurônios fritando naquele forno nazista, numa fuga para o sobrenatural, psicogravei mentalmente uma divina revelação! Ou uma Divina Comédia... Nenhuma das pessoas que participaram à frente deste processo de transformar BH na capital da ousadia em comunicação popular tinha o idolatrado diploma de jornalista...


Mesmo assim, afrontando acintosamente toda a argumentação da Fenaj - Federação Nacional de Jornalistas, a Rádio Favela e a TV Comunitária são os dois maiores celeiros para formação de profissionais da comunicação do estado e talvez do país, inclusive para estrangeiros. Tornaram-se foco de teses de mestrado e doutorado em comunicação.


Durante a cobertura que fizemos da Intercom, anos atrás, aqui em BH, estudantes de todo o país não queriam outra coisa além de visitar a tal da Rádio Favela. Ou seja: Inúmeros estudantes de comunicação vão aprender a trabalhar com leigos, que futuramente desprezarão como incapazes de exercer um conhecimento inédito que alcançaram com muito sangue, suor e lágrimas. Não serão jamais dignos de serem seus coleguinhas... Trata-se de uma relação predominantemente utilitarista.


Fernando Barbosa, já na prorrogação do segundo tempo de sua fala, afirmou: Se o Aleijadinho fosse contar com a Lei de Incentivo Cultural, estaria... estaria... perdido! Peço licença para parodiá-lo: E se nossos loucos, que fizeram das tripas coração para construir a Rádio Favela e a TVC fossem contar com um diploma de jornalista, também estariam... perdidos à muito tempo.


"Todo homem sensato aceita o mundo como ele é.

Só os loucos tentam reformar o mundo.

Portanto todo progresso depende dos loucos."

(Millôr e George Bernard Show)


Nada contra o diploma, quem o possui ou precisa dele para ganhar o pão nosso de cada dia... Mas já ocorreu ao ilustre leitor se algum jornalista diplomado praticou a desobediência civil, arriscou tanto e superou obstáculos desta dimensão para construir algo que se possa comparar à obra de Misael Avelino dos Santos? De Nerimar? De Edivaldo Faria? De José Guilherme Castro?


Não é natural que os abençoados pelo sistema tenham dificuldade de correr grandes ricos para mudá-lo? Ao que parece, a universidade geralmente uniformiza de tal forma sua linha de produção que raros conseguem fugir da robotização e pasteurização a que são submetidos. Desta Matrix que os tenta hipnotizar desde o primeiro dia que foram ao jardim de infância. A criatividade surge na adversidade, quando precisamos ir além de nossos próprios limites, fora do conforto, do calor e da segurança que todos buscam, como moscas no calor da lâmpada que as destruirá.


Há dois dos inúmeros apoiadores destes revolucionários midiáticos que não podem ser esquecidos, a menos que queiramos ser injustos com quem foi muito além do diploma acadêmico. Professor Wemerson da Amorim (Mestre Wem, para os íntimos), da cibernética Rádio da Faculdade de Educação (FAE) da UFMG ("streaming"), construindo uma ponte de mão-dupla entre a periferia e a academia.


Luiz Carlos Bernardes, ex-presidente da Fenaj e do Sindicato de Jornalistas de MG, atuando como um de nossos mais honoráveis homens da mídia, trafegando com desenvoltura e equilíbrio raros, entre governos, empresários e militantes dos movimentos sociais, não se acomodando, ambos, como seria até natural e comum, ao paradigma de uma classe social privilegiada materialmente.


Lamentavelmente, estas duas emissoras são como nossos grandes astros do futebol. Para cada um que faz sucesso, milhões fracassaram no anonimato e nas penumbras da obscuridade, sem qualquer homenagem ou recompensa econômica. Podemos batizar este fato de "fenômeno espermatozóide"... Milhões morrem para garantir que apenas um seja o felizardo! Faz parte... Deve ser a tal da seleção natural da espécie.


Houve (e ainda há) um exército que apostou (e aposta) sua poupança popular, aplicando indenizações trabalhistas, bens, relacionamentos familiares e suas vidas, para enfrentar um estado oligárquico e autoritário, uma ditadura da mídia e do poder econômico, que privilegia o capital para explorar o trabalhador legalmente, concentrando 3/4 de nossa riqueza nas mãos de 1/10 da população.


Nossos homenageados dedicaram à estes heróis desconhecidos, a homenagem que receberam. Cito especialmente Dona Maria da Conceição de Oliveira, morta por um ataque cardíaco, em função da truculência da Polícia Federal, em Teresina-PI. Adentraram na emissora comunitária como se ali fosse o quartel general do mais hediondo criminoso do país, armados até os dentes e praticando, como de praxe, coação moral e ilegal, ao contrário da gentileza subserviente com que brindam ricos corruptos e brancos. Ela apenas exercia seu legitimo direito à liberdade de expressão, destinada pelo estado privatizado brasileiro apenas aos compadres políticos, numa barganha imoral. No último Congresso Nacional da Abraço, ela foi elevada à condição de patronesse da entidade, representando condignamente todas as vítimas desta mesma opressão que visa impedir a organização popular e a interação entre os perseguidos pelo estado criminoso em que vivemos. É a eterna luta de classes.


O trágico disto é que Lula nada fez pelas rádios comunitárias, mesmo reconhecendo, publicamente, durante a abertura da Teia 2007, que seu governo tem uma grande dívida com este setor. "Nunca, na história deste país", as RadCom foram tão perseguidas como em sua gestão. Mas, durante a campanha ele se dizia um seu eterno defensor. Como alguém pode ser, assim, tão hipócrita?!


ABAIXO A DITADURA DO PODER ECONÔMICO!


Hoje, às 12:00 h, na Praça 7, a luta continua: Pela construção de uma verdadeira soberania midiática e democrática na pátria brasileira e no Haiti

23 de outubro, às 19h30 - A Psicologia em prol da Conferência Nacional de Comunicação

Rua Timbiras, 1532 - 6o. andar - (31) 2138 6767 - http://www.crpmg.org.br/




(*) Heitor Reis é engenheiro civil, militante do movimento pela democratização da comunicação e em defesa dos Direitos Humanos, membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida (www.cmqv.org) e articulista. Nenhum direito autoral reservado: Esquerdos autorais ("Copyleft"). Contatos: (31) 3243 6286 - heitorreis@gmail.com
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