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terça-feira, 12 de maio de 2009

A Confecom, o conservadorismo conceitual e a luta contra a correnteza

Heitor Reis (*)


Existem pessoas extremamente práticas, pragmáticas e realizadoras. Normalmente não são muito dadas à reflexão ou a profundidade racional, nem ao planejamento de longo prazo. São terra à terra, tem os pés no chão e simplificam as coisas para chegar onde querem o mais rápido possível. Trazem dentro de si uma ansiedade pelo resultado mais imediato, mesmo pouco significativo. Raramente são capazes de contemplar a possibilidade das estrelas.

No extremo oposto estão aquelas que querem mais profundidade, acreditando que não se sustenta o resultado de ações que não tem raízes profundas em algo sólido em termos abstratos, conceituais e sutis. Buscam um resultado mais substancioso, mais elevado, quando não a perfeição. Tem a cabeça nas estrelas, mas nem sempre os pés no chão. São pouco práticos.

É raro conseguir o aproveitamento do que há de positivo em ambos os extremos e construir, dialeticamente, um resultado que os contemple simultaneamente.

Seguramente esta dificuldade existe desde quando o ser humano começou a pensar sobre como atingir um futuro melhor para si, sua família, sua tribo ou sua espécie.
Com 74 % de analfabetos e semi-analfabetos, sendo ainda maior o número de analfabetos políticos, mesmo dentre os alfabetizados em português, esta situação é até muito natural, como fruto de uma cultura mazomba:
>>O atraso brasileiro é explicado tanto pelos fatores geográficos quanto por fatores ético-religiosos. Para Moog (s/d., p. 141), os EUA são o único país que nasceu calvinista. Daí decorre o orgulho de ser "americano" por oposição a europeu, no sentido do orgulho de quem está construindo a vida de acordo com uma idéia de comunidade tida como sagrada. Uma vida baseada na ética do trabalho, no aperfeiçoamento moral e no pragmatismo econômico. Este é o mundo do pioneiro estadunidense para Moog. No Brasil, a figura correspondente, em termos de realidade histórica, é o "mazombo". O mazombo é o filho do português nascido no Brasil, cujas características são muito semelhantes ao perfil do homem cordial [movido predominantemente pelo coração e não pela razão - comentário meu] traçado por Sérgio Buarque:
(a) individualismo personalista,
(b) busca de prazeres imediatos,
(c) descaso por ideais comunitários e de longo prazo.
Temos novamente, aqui também, o confronto do absolutamente positivo com o absolutamente negativo. <<
Assim, como membro da turma da abstração, venho propondo em todo ambiente que frequento uma reflexão sobre os conceitos utilizados, estecialmente no que tange ao Estado, democracia, ideologias, etc. É, naturalmente, muito comum meus companheiros tentarem conter minha onda, de forma muito direta e contundente: "Nós não vamos a esta conferência para discutir conceitos!"
No último Congresso Nacional da Abraço - Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária, propus aos delegados ali presentes que entendêssemos e discutíssemos o Estado brasileiro, tendo visto se encontrar nele a causa da perseguição às nossas emissoras, etc. Fui solenemente impedido por unanimidade! Algo semelhante ocorreu numa reunião do Comitê Mineiro do Fórum Social Mundial. E, assim, vou insistindo, convicto de que cumpro o meu dever de tentar difundir tal visão de mundo.
Então, imaginem minha satisfação ao ler a Proposta de São Paulo para o temário e os critérios organizativos da sociedade civil não empresarial na Conferência Nacional de Comunicação. Ali, encontrei o seguinte, com grifo meu:
"Devemos, preliminarmente, introduzir na Conferência Nacional uma discussão conceitual sobre comunicação social. É importante que sejam discutidos os princípios da comunicação social, antes de entrar no debate dos eixos temáticos ou das questões específicas das mídias, para assim estabelecer os pontos fundantes do entendimento da comunicação como um direito humano fundamental.

Isso nos permitirá, no momento seguinte, ampliar e aprofundar o debate a partir de eixos transversais estruturantes, dentro da lógica de transformar a realidade atual para reconhecer direitos hoje inexistentes: o acesso ilimitado da população aos meios de comunicação, ao direito de informar e de ser informada, ao direito de reconhecimento das diferenças culturais/regionais etc. Em outras palavras, a democratização dos meios de comunicação social.

A discussão conceitual e de princípios permitirá superar os limites hoje existentes ―– que excluem, marginalizam, invisibilizam seletivamente, reforçam estereótipos e são danosos à maioria da sociedade brasileira ― e romper, assim, com a tendência à manutenção do status quo."
Como é bom saber que não se está sozinho!
Ao ler "democratização dos meios de comunicação social" percebo que tal propósito somente existe em função do combate a uma ditadura dos meios de comunicação social. Então pergunto sempre: Por que todos relutam ou temem neuroticamente afirmar a existência deste alvo que queremos destruir para que o seu oposto se realize? Por que o movimento negro que quer a igualdade social não afirma que há uma ditadura dos brancos? Por que o movimento de mulheres não combate explicitamente a ditadura dos homens sobre elas? Nem os revolucionaríssimos sem-terra mencionam haver uma ditadura do latifúndio. Os pobres não tem coragem para sequer sussurar que há uma ditadura dos ricos sobre eles...
Ao ler "democratização" percebo nitidamente que cada um imagina algo diferente sobre o que é democracia. Mas ninguém ousa buscar um entendimento comum ou uma organização dos pontos que são comuns à maioria. Muito menos considerar se é o povo quem, de fato, governa este país.
Assim, venho discutindo se a democracia prevista pela Comissão Nacional Pró-Conferência foi esquecida de forma conveniente ou se vale a pena brigar por uma composição menos prejudicial para a sociedade civil não-empresarial. Felizmente também há algumas comissões estaduais e entidades que se manifestaram formal e publicamente criticando esta situação.
Chegou ontem para mim um texto de Leonardo Boff que aposta na crise financeira como um aspecto mais grosseiro da crise de valores muito mais abstratos que os circulantes nos templos da Rua do Muro ("Wall Street", no idioma do império) e nas sinagogas dos centros de compras ("shoppings center", idem): http://leonardoboff.com/site/vista/2009/abr03.htm
Para quem gosta de uma boa polêmica, coisa extremamente negativa para os pragmáticos, segue o endereço de algumas reflexões nada convencionais: http://prod.midiaindependente.org/pt/red/2009/04/445051.shtml



(*) Heitor Reis é um subversivo e um indivíduo perigoso do ponto de vista dos milicos e de Gilmar Mendes. Engenheiro civil, militante do movimento pela democratização da comunicação e em defesa dos Direitos Humanos, membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida (
www.cmqv.org) e articulista. Nenhum direito autoral reservado: Esquerdos autorais ("Copyleft"). Contatos: (31) 9208 2261- heitorreis@gmail.com - 08/05/2009

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