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terça-feira, 26 de maio de 2009

"Da Alienação à Depressão: caminhos capitalistas da exploração do sofrimento".



Parte 2

Emilio Gennari

1. A reestruturação produtiva e seus reflexos no trabalhador coletivo.

Pronta a dar continuidade ao relato, Nádia aguarda que o secretário arrume papel e fôlego suficientes para mais uma etapa da viagem às transformações que ocorrem no mundo do trabalho. Após breves instantes de espera silenciosa, a coruja desenha círculos no ar com a ponta da asa esquerda e, assumindo o controle da situação, diz:

“Entre as medidas trazidas pelos anos 90, a terceirização é, sem dúvida, a que atinge o maior número de empresas e evidencia uma rápida e profunda precarização das relações de trabalho. Bancos, fábricas, fazendas, escritórios, transportadoras, comércios de todos os tipos e tamanhos se apressam a eliminar de seus quadros um grande contingente de funcionários que antes integrava, com plenitude de direitos, as categorias profissionais nas quais estava inserido. Em menos de dois anos, o país assiste a uma verdadeira febre pela qual centenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras são demitidos para serem contratados por prestadoras de serviços.

Apesar de, às vezes, ocuparem o mesmo posto, o salário sofre uma redução média de 30%, desaparecem benefícios como plano de saúde, auxílio creche, vale refeição, complementação de renda quando do adoecimento prolongado, etc. Estas medidas instalam uma clara sensação de insegurança tanto entre os que acabam de passar por este processo, como no quadro de funcionários que mantém os vínculos normais com a empresa. A disciplina do desemprego e a precarização das já difíceis condições de vida são a peça-chave que faz a classe se submeter sem grandes resistências às novas exigências do capital.

A alta rotatividade dos terceirizados e o fato de pertencerem frequentemente a categorias profissionais cujo sindicato é bem menos combativo, quando não totalmente ineficiente, dificulta ainda mais o trabalho de organização e mobilização. O problema é que apesar de verem suas fileiras encolherem, os dirigentes continuam centrando sua atuação nos aspectos econômico-corporativos e ora se negam, ora se revelam incapazes de envolver este setor do trabalhador coletivo que atua lado a lado com os funcionários por eles representados.

O progressivo distanciamento que vai se consolidando não leva só ao completo abandono dos terceirizados diante das injustiças e dos riscos aos quais estão submetidos como permite às empresas aprofundarem atritos entre colegas e dificultar ainda mais a resistência coletiva e o sentimento de indignação. Agora são os próprios operários a impedir, por exemplo, que os prestadores de serviço tomem o seu café, pois este é o café dos que são da nossa empresa; a distribuir com ar de superioridade ordens de serviço para a realização de trabalhos sujos e perigosos que antes a chefia dirigia a eles; a acusar os terceirizados (e não a empresa) de contribuírem para a perda de seus antigos direitos; ou, ainda, sem levar em consideração o treinamento e as precárias condições que lhes são oferecidas, a rebaixar estes colegas por eles não darem conta do que é pedido com a qualidade e a presteza dos tempos antigos.

Em graus que diferem de uma empresa pra outra, entre terceirizados e diretamente contratados se instalam situações que levam a desagregar os elementos de solidariedade e confiança que constituem os pilares de toda organização de base. É como se agora o salário reduzido pelo qual os primeiros aceitaram trabalhar e o nariz empinado que os segundos mostram em suas relações corriqueiras fossem problemas maiores do que a necessidade de dar vida a uma luta conjunta contra a exploração de ambos os grupos.

Mas isso não é tudo. Em constante mudança entre as empresas e sem uma representação sindical consistente, as vítimas da terceirização experimentam na própria pele os crescentes efeitos desta dispersão. Sem proteção, dependendo exclusivamente do seu esforço e desempenho pessoal, vivenciando a insegurança quanto ao recebimento regular de seus vencimentos e sem nenhum tipo de orientação, elas vêem o amanhã com incerteza e o presente com resignação ao sacrifício necessário para poder sobreviver. Se, por um lado, o fato de não estarem desempregados é um consolo, de outro, o sofrimento diário é o pão amargo que acompanha cada hora dentro e fora do ambiente de trabalho.

Na ausência de perspectivas de mudança, só resta a este contingente a possibilidade de ir se acostumando com a dor que acaba sendo incorporada como uma sina da profissão exercida. Pouco a pouco, as marcas deixadas no corpo pelas tarefas desempenhadas na empresa não são vistas como fruto da exploração do trabalho, mas sim da fragilidade pessoal, de algo, portanto, que é parte de constituição física e mental de cada indivíduo. O conjunto desses mecanismos permite ocultar a evolução das doenças profissionais, sua gravidade e seu grau de incidência nos setores mais insalubres e perigosos, e apagam a relação doença-trabalho como caminho pelo qual é possível perceber a exploração e tomar consciência da necessidade de uma reação.

Consciente ou inconscientemente, três silêncios são cúmplices do capital: o dos sindicatos, que na melhor das hipóteses, limitam-se a denunciar os acidentes com morte que vitimam os que não pertencem à sua categoria; o dos trabalhadores diretamente contratados, para os quais cabe sempre aos outros alertar e denunciar as situações de risco nos quais os terceirizados são colocados, via de regra, sem o treinamento e os equipamentos necessários; e o dos próprios funcionários das prestadoras de serviços cujo medo do desemprego sufoca o que resta das manifestações de sofrimento ou revolta pelas condições a que estão submetidos”.

“Ao começar pelo pior entre as mudanças nos locais de trabalho você me deixou assustado – afirma o homem ao deixar cair a caneta. Mas, por outro lado, é inegável que a chegada da automação em vários setores reduziu o esforço físico, eliminou riscos que antes causavam inúmeros acidentes, tornou mais limpos os setores produtivos e facilitou a execução de tarefas pelas quais muito se exigia dos operários nelas envolvidos...”

- “Quanto a isso, você tem razão – concorda a ave ao apoiar o queixo na ponta da asa. O problema é que ao mesmo tempo em que ocorriam estes que poderíamos chamar de efeitos positivos da automação, novas situações já apontavam que o futuro supostamente brilhante a ser trazido pela tecnologia seria mais para as empresas do que para a classe trabalhadora.

Entre os primeiros elementos, é impossível não ver a flexibilização das tarefas e das funções, mais conhecida pelo nome de polivalência. Ao se tornar pau-pra-toda-obra, o funcionário se vê diante da elevação do número de tarefas a serem executadas em curtos espaços de tempo. Se, de um lado, a variação rompe a monotonia, de outro, o ritmo se torna alucinante. Se isso não bastasse, a execução de uma seqüência de operações não implica em maior qualificação profissional (pois, em geral, o saber-fazer aprendido no setor só vale naquele âmbito), mas sim no aumento da produtividade do trabalho e na redução significativa das resistências individuais. De fato, ao dizer isso não é da minha função, cada empregado procurava se proteger contra qualquer aumento da carga de trabalho por saber que, no dia seguinte, novas demandas seriam acrescentadas às que vinham sendo exigidas.

A introdução da polivalência elimina assim a maior parte das barreiras que criavam empecilhos à plena utilização da força de trabalho e, ao mesmo tempo, introduz uma realidade intrigante: se antes um bom número de funcionários em greve era suficiente para paralisar as atividades, agora basta pouca gente para conseguir manter as funções essenciais e pôr as máquinas pra trabalhar no ritmo permitido pelos empregados que furaram os bloqueios do sindicato. Na medida em que todos aprenderam a realizar várias tarefas, sua substituição momentânea ou definitiva não é um problema, mas algo que se torna facilmente realizável e que, de conseqüência, vai agravar o medo do desemprego.

A aceleração do ritmo e das cadências se dá também através de elementos que não são imediatamente visíveis. Além de reduzir os tempos de parada para manutenção e os contatos informais entre os empregados, as novas tecnologias introduzem o que é conhecido como controle em tempo real. Ou seja, os sistemas informatizados permitem verificar instantaneamente o desempenho de cada empregado, suas médias por hora, os tempos em que se ausenta do processo de trabalho e, graças ao auxílio das câmaras de vídeo, como trabalha, com quem se relaciona e em que medida sua atuação pode provocar a paralisação ou algum atraso na produção.

Ainda que as novas máquinas ajudem a reduzir o cansaço físico, é inegável que elas elevam o grau de atenção exigido e, de conseqüência, a tensão nervosa e a fadiga mental dos operadores. Estes fatores de desgaste crescem na medida em que, além de trabalhar mais depressa, com um contingente de pessoas reduzido ao mínimo, em constante sobrecarga e sem poder tomar as precauções necessárias, é necessário supervisionar um número maior de dispositivos cujo mau desempenho pode ocasionar acidentes graves ou fatais.

Neste contexto, o espaço de ação do indivíduo fica cada vez mais apertado. Assustado pelo fantasma do desemprego e da possível demissão, coagido pelos controles sobre os quais não exerce nenhuma influência, empurrado pelos seus próprios sonhos e isolado pelo encolhimento dos âmbitos de cooperação, solidariedade e amizade sobre os quais se forjava a resistência coletiva, o sujeito acaba mobilizando toda a sua inteligência e energia para cumprir as metas exigidas.

Esta realidade não se altera nem mesmo quando o trabalho é organizado em células ou equipes. A necessidade de dar conta do recado’ a qualquer preço acirra os mecanismos de controle implícito dos próprios colegas que se encarregam de coibir as idas ao banheiro, o tempo do cafezinho, do cigarro e de fiscalizar o próprio ritmo de cada membro sem precisar da chefia. Além disso, todos sabem que o desempenho de cada grupo é constantemente medido e comparado com os demais numa competição dirigida pela gerência e na qual o fato de chegar seguidamente nos últimos lugares é, no mínimo, sinônimo de chantagens, gozações e ameaças de demissão disfarçadas de conselhos paternalistas.

Seja qual for a forma pela qual se viabiliza a mudança dos processos produtivos, trabalhadores e trabalhadoras têm clareza de que ou se rendem ao jogo da empresa ou correm o risco de conhecer pessoalmente o duro caminho do desemprego. Não há meio termo possível, pois a reestruturação só consegue vingar em sua plenitude na medida em que são varridas do local de trabalho as pessoas e as lembranças que podem trazer de volta a resistência do passado.

A sujeição à qual a classe é forçada a se submeter anda de mãos dadas com as diferentes práticas disciplinares e regulamentos internos que não só buscam inibir toda reação contrária ao sistema, como tendem a canalizar para o aperfeiçoamento deste as reivindicações, observações e formas de descontentamento que, de tempos em tempos, se manifestam entre os funcionários. Ou seja, a empresa moderna não se preocupa apenas em punir, mas intimida ao mesmo tempo em que deixa espaços para a apresentação de demandas que ajudam a aperfeiçoar os modos operatórios.

Ao blindar o convencimento com as regras da coerção, o atendimento de reivindicações pontuais pela empresa é usado como um sinal pelo qual basta a presença de um canal de comunicação entre a hierarquia e o quadro de funcionários para que a primeira possa atendê-las de acordo com as possibilidades e, obviamente, capitalizar o mérito das benesses proporcionadas. O resultado é simples: a satisfação das pequenas necessidades diárias diminui o descontentamento, reduz o peso da atividade sindical, evita os conflitos, estimula a obediência, incentiva novos patamares de intervenção criativa, alimentando a produtividade e o sentimento de auto-realização. Graças à constante superação das metas pré-fixadas, é possível colocar em andamento uma lenta, porém sistemática, redução do quadro de funcionários. Ainda que isso implique em colocar o processo em ponto de ruptura pela elevação dos riscos implícitos na aceleração do ritmo, o sofrimento introduzido pelas novas metas a serem atingidas é compensado por prêmios em dinheiro ou em viagens, reconhecimentos simbólicos, fotografias que atestam o esforço do ‘funcionário do “mês’ e elogios que custam pouco e valem menos ainda.

Mas isso não é tudo. Ao aderir a esta realidade, o funcionário começa a abrir mão de sua ética profissional e a fazer, literalmente, de tudo para chegar nos primeiros lugares. Pouco importa se para conseguir este objetivo ele precisa enganar alguém, mentir para outros ou prejudicar o colega ao lado. Ao atuar na direção indicada pela empresa, tudo parece legitimar suas atitudes e o sofrimento alheio que nasce desta adesão começa a ser justificado com a alegação cínica de que se eu não fizer, outro vai fazer. Desta forma, o próprio erro é automaticamente justificado com a suposição de que alguém pode vir a fazer o mesmo e acabar se beneficiando do que é oferecido”.

O que ainda não ficou claro é como as empresas conseguem conciliar coerção e convencimento a ponto de seduzirem o trabalhador coletivo a percorrer os caminhos que aumentam o seu sofrimento e a exploração que pesa sobre suas costas...”, pede o secretário intrigado com a longa fala da coruja.

“Bom, vamos por partes – afirma Nádia com uma expressão típica de quem pretende iluminar os recantos mais escuros da organização do trabalho. Os anos 90 conhecem o aperfeiçoamento de três importantes instrumentos com os quais os patrões procuram realizar esta façanha: a avaliação individualizada de desempenho, os programas de qualidade total e o desenvolvimento de planos de cargos, carreiras e salários.

No que diz respeito à primeira questão, é bom lembrar que ela se torna possível pelo acompanhamento informatizado do desempenho de cada trabalhador, o tal controle em tempo real do qual falávamos acima. Associada a um programa de metas e encouraçada pela ameaça de demissão, a avaliação individualizada escancara a porta do cada um por si Deus por todos e, via de regra, leva as pessoas a comportamentos desleais em relação aos próprios colegas, à uma queda nos níveis de confiança recíproca e, após algum tempo, à ruptura dos laços de solidariedade e do que faz o viver-juntos de todos os dias.

Mas isso é só o começo das dores. Entre os elementos que saltam aos olhos está o fato de que, na avaliação do desempenho individual, a ênfase cai exclusivamente sobre os dados quantitativos que não consideram as condições reais em que as tarefas são realizadas. Diante dos gráficos, a chefia não quer saber se naquele dia os computadores estavam mais lentos do que de costume, se o funcionário tinha que lidar com processos cabeludos ou situações de difícil solução, se o trânsito particularmente engarrafado dificultava as entregas, se parte das peças a serem montadas estava fora de especificação e precisava de ajuste ou se a má qualidade da matéria-prima exigia um trabalho adicional não previsto pelo setor de engenharia. O que importa é o número final que indica o quanto foi feito e não os esforços qualitativos que se fizeram necessários para dar conta do que, para a supervisão, não passa de algo que é sempre simples e rápido.

Em breves palavras, a aparente objetividade da avaliação quantitativa oculta o fato bastante corriqueiro de que raramente as coisas saem do jeito que foram planejadas exatamente porque há sempre certo volume de imprevistos que escapam dos cálculos empresariais. Ao estar com a cabeça no forno e os pés no congelador, na média, o seu corpo pode até alcançar a temperatura ideal, apesar de você passar mal de ponta a ponta. Do mesmo modo, a avaliação de desempenho só utiliza como parâmetro as metas designadas para cada empregado sem perguntar se, no processo de trabalho, ele teve um dia de mais congelador ou de mais forno...”.

- “E as empresas não sabem disso?!?”.

- “Sabem, mas admitir esta realidade significa reconhecer a necessidade de adaptar o trabalho ao ser humano que o desempenha e, portanto, a necessidade de não forçá-lo a se submeter ao ritmo dos equipamentos e à imposição arbitrária de níveis de produtividade cada vez mais elevados. Por isso, no lugar de reconhecer a distância entre o trabalho prescrito e o real, as gerências preferem bater na necessidade de aprender a superar os próprios limites num processo pelo qual é sempre possível melhorar e nenhum obstáculo pode ser considerado intransponível.

Inserida nos elementos que já descrevemos, a satisfação das pequenas necessidades diárias diminui o descontentamento, reduz o peso da atividade sindical, evita os conflitos, estimula a obediência, incentiva novos patamares de intervenção criativa, alimentando a produtividade e o sentimento de auto-realizaçãoesta lógica seduz o indivíduo para a que podemos chamar de ditadura do sucesso. Desistir, não aceitar ou simplesmente resistir a ela implica em se submeter à desqualificação e ao julgamento negativo das chefias e dos próprios colegas para os quais vencer é o único meio de ser reconhecido, valorizado e mantido na organização. Isso implica em reproduzir discursos, seguir regras, apresentar resultados, ser dócil e obediente a ponto de ganhar os tão almejados elogios à competência que levam o sujeito a acreditar que a empresa exige dele porque está convencida de que é capaz de dar conta do recado, de atingir objetivos desafiadores, de mostrar a si mesmo que pode fazer mais.

O processo pelo qual trabalhadores e trabalhadoras chegam a assumir demandas empresariais como se fossem metas pessoais conduz a uma inversão de valores extremamente sutil e bem articulada. O primeiro aspecto a ser virado de cabeça pra baixo é o significado da palavra competência no exercício da própria função. Nos moldes da avaliação individualizada, pouco importa a quantos anos você está no setor, que abacaxis sua experiência ajudou a descascar ou até mesmo as centenas de ocasiões em que o saber prático acumulado na execução do trabalho foi indispensável para tirar a chefia do sufoco. Como nem esse esforço nem o sofrimento que ele gera podem ser medidos quantitativamente, o que conta agora é somente o desempenho que vira número. A aparente objetividade dos cálculos que medem o trabalho realizado faz com que possa ser chamado de competente apenas quem consegue cumprir ou superar as expectativas da empresa. O sucesso e o fracasso são assim desvinculados do trabalho real desenvolvido, das atitudes desonestas de colegas que usam sua posição para executarem o que é mais simples (e, portanto, permite atingir com facilidade as metas estabelecidas), da situação do maquinário e dos demais [WINDOWS-1252?]‘detalhes’ do processo de trabalho. O que importa é apenas o quanto, o número, a porcentagem atingida.

A segunda inversão de valores está na postura dos colegas diante de quem não alcança a produtividade esperada. Longe de ganhar a solidariedade coletiva, os portadores de resultados negativos são vistos como merecedores de humilhação e constrangimento na medida em que seu desempenho rompe o espírito de competição e compromisso que o grupo acredita ter assumido natural e espontaneamente diante da realidade do trabalho. Em práticas que variam de setor a setor, de empresa a empresa, o apontar e reprovar publicamente quem não conseguiu atingir as metas costuma levantar dúvidas quanto à capacidade do indivíduo e do seu compromisso com a organização, o que, via de regra, desperta um profundo sentimento de vergonha que se torna um poderoso elemento disciplinador. Para evitar situações constrangedoras e o cumprimento da ameaça de demissão, as pessoas sentem-se empurradas a dedicar-se mais ao trabalho e começam a se policiar, a não se conceder nenhum instante de folga, a fazer tudo como manda o figurino”.

- “Pelo que você disse, a avaliação individualizada de desempenho tem como pontos de referência os objetivos estabelecidos pela empresa. Pelo que sei, os programas de qualidade total demandam a participação dos funcionários e quem participa destes programas parece gostar do que faz. Será que aí também vamos encontrar conseqüências perversas?”.

- “O que as grossas lentes de seus óculos ainda não lhe permitem enxergar é o efeito sombra que toda novidade projeta sobre a realidade conhecida. Nos dias em que falta energia elétrica, ter uma vela ao alcance da mão produz uma grande sensação de alívio. É pouco, mas o simples fato de conseguir se mexer na escuridão sem trombar em nada é, sem dúvida, algo que traz segurança e conforto. O problema é que a pequena luz destinada a clarear o ambiente projeta sombras tenebrosas em tudo o que está atrás de quem a carrega. Ou seja, ao mesmo tempo em que as novas políticas de recursos humanos trazem esperança de alívio, sua aplicação não deixa de alimentar os passos necessários para aumentar a eficiência dos equipamentos existentes, reduzir o número de empregados e viabilizar formas de controle bem mais sutis e aprimoradas.

De mãos dadas com a avaliação de desempenho, os programas de qualidade total se apresentam como uma espécie de solução definitiva para a busca da eficiência e da excelência, apesar de qualquer gerente saber que há sempre uma distância irredutível entre os métodos implementados e o trabalho real de todos os dias.

No ‘vale tudo’ para levar os funcionários a ceder o saber prático acumulado (e que, no passado, servia também para desenvolver formas de resistência) os envolvidos nestes programas acabam entrando numa verdadeira sinuca de bico. De um lado, a possibilidade de participar faz eles experimentarem uma valorização pessoal, mas, de outro, vêem-se forçados a mentir, antes pelo temor de desagradar quem dirige tais programas e vir a sofrer punições, e, depois, na hora da empresa obter os certificados ISO, pois as auditorias não podem perceber a diferença que existe entre o que é dito e o que realmente ocorre no cotidiano do trabalho.

Para muitos profissionais, esta obrigação de mentir somada ao aumento das tarefas proporcionado pela eficiência alcançada com suas próprias idéias, dá origem a uma sensação de desorientação, de confusão, de perda de confiança em si mesmos e nos demais que produz um profundo sofrimento psíquico. Em breves palavras, um profissional de mão cheia sabe que aquilo não é assim, que está errado, que o seu silêncio e a colaboração com a empresa podem inclusive levar a acidentes graves ou a doenças profissionais mais agudas. Ele tem consciência de que está fazendo algo que vai recair sobre ele mesmo e que normalmente condenaria ou reprovaria, mas, diante da afirmação pela qual ou a empresa age desse jeito ou pode não ser competitiva e ter que cortar postos de trabalho, ele mergulha num turbilhão de sentimentos contraditórios. De um lado, sente que parte da responsabilidade pelo que faz sai do seu controle, mas, de outro, sabe que a maioria dos colegas irá olhá-lo com reprovação e que a própria chefia o punirá se algo der errado em função do que a empresa o levou a omitir ou a falsear.

Para vencer as resistências individuais, fruto da ética pessoal, o capital não esquece de blindar suas ações de convencimento com a coerção da sobrevivência. Frases como lembre que pagamos um dos melhores salários da região, é com o que ganha aqui que você já realizou parte dos seus sonhos e pode ter ainda mais ou uma mão lava a outra, por isso se você nos ajuda a alcançar novas metas você também cresce junto e pode se firmar na empresa são parte de um arsenal de pressões psicológicas que flutua entre a sedução e a coerção pura e simples.

Ao vincular a realização pessoal aos objetivos empresariais, o capital oculta os interesses e a responsabilidade real de quem dirige este processo nas altas esferas da empresa e apresenta as medidas demandadas como algo imprescindível para fazer frente aos fatores incontroláveis que cercam e ameaçam a vida da organização. Quem já não ouviu os patrões falarem na necessidade de atender às exigências do mercado como condição para manter os empreendimentos? Ou ainda, que o lucro é o prêmio com o qual o cliente retribui os serviços prestados e a partir do qual é possível investir para ampliar a qualidade, o tipo e a quantidade de atendimentos, proporcionando assim mais empregos e renda aos próprios colaboradores?

Pouco a pouco, lucrar e acumular deixam de ser partes constitutivas da vocação do capital que, para se realizar, deve impor mais trabalho, mais exploração e, obviamente, mais sofrimento à coletividade, e passa a ser desejado por todos exatamente porque o mundo em volta da empresa parece depender de figuras incontroláveis como o cliente e o mercado. Este aspecto é parte essencial das novas formas de gestão na medida em que ajuda as pessoas a retirar da realidade toda sensação de culpa e responsabilidade pessoal em relação às conseqüências que serão produzidas ao mesmo tempo em que leva os empregados a se focarem nas metas empresariais com a maior dedicação possível e a esquecerem que, ao aumentar a produtividade ou reduzir custos essenciais, suas próprias idéias contribuem para o aprofundamento da exploração e do sofrimento.

Convencidas de que é assim simplesmente porque todos fazem isso e repetem a papagaio os dogmas popularizados da acumulação, as pessoas não ficam intrigadas ou magoadas nem mesmo quando percebem que a democracia empresarial só é desejável e viável nos aspectos que alimentam os interesses patronais. O mesmo ocorre nos casos em que dois gramas de reflexão coletiva levam trabalhadores e trabalhadoras a se dar conta de que sua participação ativa nos planos da firma visa apenas legitimar o que foi previamente estabelecido pelos gerentes que, por sua vez, manipulam a verdadeira palavra dos subordinados para depurá-la das dissonâncias com os processos implementados e anular qualquer elemento que possa colocá-los sob suspeita.

E tem mais. Mobilizado para os objetivos da produção, o indivíduo assume o controle do desempenho do colega que o antecede no processo de trabalho ao mesmo tempo em que sua atuação também é avaliada pelo que recebe o resultado do seu esforço. As resistências de cunho ético são vencidas antes pelo conformismo com a realidade imposta e, em seguida, pela prática automática das novas relações, pela naturalidade com a qual esta leva a pensar no trabalho 24 horas por dia ou pelos novos sonhos que a submissão às regras permite acalentar. Passo a passo, o sujeito cai numa armadilha mortal: não pode manifestar abertamente seu descontentamento e suas reservas para não se tornar estranho ao contexto em que está inserido, deixa de perceber a verdadeira razão de seu sofrimento psíquico e passa de uma atitude de submissão forçada a uma de satisfação na própria submissão por acreditar que vinculando o seu destino ao da empresa ele pode realmente concretizar seus desejos e realizar a si próprio. Sem perceber, ele adere a uma espécie de servidão voluntária. Ou seja, no lugar de ser um bom escravo justamente porque se rebela, reduz o ritmo de trabalho, poupa o seu corpo de desgastes adicionais e aposta suas fichas em tudo o que pode romper suas correntes, ele se transforma num escravo que é feliz de ser escravo, teme a liberdade porque representa o novo, foge de tudo o que projeta incertezas nas sobras às quais tem direito e ajuda o capataz a identificar os rebeldes.

Isso ocorre porque ele assumiu como próprias as formas de comportamento e os valores da organização para a qual trabalha. Os concorrentes da empresa chegam a ser descritos como inimigos pessoais (quem já não ouviu operários das fábricas de calçados amaldiçoarem esses filhos das p... de chineses que ameaçam os nossos empregos). As atitudes nas quais foi instruído tornam-se caminho seguro para o seu reconhecimento e afirmação. E as idéias incorporadas viram critério a partir do qual são julgados os comportamentos a serem mantidos com quem está ao seu redor.

O novo funcionário se sente assim feliz e protegido. Agora, ele pode olhar pra cima sem ouvir a dor daqueles nos quais está pisando, recusar o contato com quem lhe lembra das responsabilidades com os demais e não ser atrapalhado na hora em que se sente projetado para o que considera ser o ‘seu’ sucesso.

O problema está justamente no fato de que, em geral, o ponto mais alto de seu sentimento de realização pessoal coincide com o início de sua descida ao inferno da solidão. No exato momento em que o sujeito parece tocar o céu com os dedos por ter realizado metas que não são suas e ter se envolvido corpo e alma em satisfazer interesses econômicos empresariais sobre os quais não detém o menor controle, ele começa a se tornar estranho e estrangeiro em relação a si próprio. Este processo ganha velocidade na medida em que, para se sentir e se achar cada vez mais, ele se isola, se fecha, e veste espontaneamente uma camisa de força com a mesma convicção de quem acredita que vai arrasar ao usar a roupa da moda.

”O capital assiste rindo de camarote ao progressivo desgaste físico e mental que levará à expulsão futura deste fiel serviçal e à sua substituição por outro alguém que, da amargura do desemprego, torce para ser chamado a substituir as peças gastas”.

“Nesta altura, estou até com medo de ouvir o que vai dizer em relação aos planos de carreira...”, sussurra o homem sem levantar a cabeça.

“No que diz respeito a esta questão, vale a pena resgatar o fato de que, em geral, os planos de carreira são produzidos por iniciativa patronal frente à qual a intervenção dos sindicatos limita-se a batalhar regras que proporcionem maior transparência nas promoções, evitem abusos ou apadrinhamentos e fixem as condições que, para cada degrau da carreira, definem uma remuneração adequada à formação escolar, à experiência profissional e à responsabilidade exigida pelo cargo. Ninguém duvida que, sob vários aspectos, estamos falando de algo que pode beneficiar os trabalhadores e recompensar seus sofrimentos. Mas é fato que nada disso vem de graça”.

“Ora, Nádia, os próprios funcionários pressionam para ter um plano desse como forma de ter acesso a uma tabela salarial mais consistente, portanto, não há como ser diferente...!”, conclui apressada a língua sem medir as conseqüências de sua intervenção.

“O problema, querido humano, não está apenas no que se diz, mas, sobretudo, no que as posturas afirmam até mesmo contra os discursos e as posições veiculadas pelos informativos dirigidos à categoria. Apesar de ser um instrumento de educação da classe, o sindicato freqüentemente não cumpre este papel e se deixa levar pelo senso comum. Até o momento, nenhuma entidade se debruçou sobre uma questão intrigante: se o sofrimento na adaptação dos novatos às tarefas exigidas é muito maior do que é oriundo da execução corriqueira do trabalho por um empregado experiente, porque aceitamos que esse esforço não ganhe o reconhecimento devido na tabela salarial? Por que a angústia do contrato de experiência só é paga com a admissão? Trata-se de uma prova de fogo pela qual o indivíduo atesta sua disposição a ser esfolado? Enfim, por que os limites do sistema a este respeito não são sequer questionados através da mesma lógica que, em seguida, vai permitir ocultar o sofrimento do trabalho e explorá-lo para elevar os lucros empresariais? Por que além da transparência, da necessidade de criar regras claras, de evitar mutretas e favorecimentos ilícitos, de compensar a antiguidade e estimular a continuidade dos estudos, as preocupações sindicais não se debruçam sobre o sofrimento no trabalho?”.

“Sinceramente, não consigo entender onde quer chegar...”.

“Vamos por partes ]– convida a ave ao cruzar a ponta das asas atrás das costas. Se, de um lado, os sindicatos não podem deixar de debater a formatação dos planos de carreira (pois, do contrário, a única palavra a ser ouvida seria a da empresa), de outro, faz-se necessária uma intervenção qualificada para resgatar os elementos que pontuamos acima e desmascarar o objetivo implícito a estas medidas gerenciais.

Se é verdade que as questões apresentadas nas páginas anteriores, ainda que em graus diferentes, são parte da realidade vivenciada nos locais de trabalho, um plano de carreira minimamente estruturado e coerente faz a submissão ainda mais apetitosa. Graças aos mecanismos próprios de cada carreira, a organização formaliza e torna homogêneos padrões de condutas, reduz ao máximo o espaço para a transgressão, estabelece uma parceria pela qual o sucesso e o reconhecimento do indivíduo passam pelo espírito de sacrifício com o qual este se dedica e se insere na vida da organização disposto a oferecer o melhor de si.

Por sua vez, o funcionário vê no plano de carreira a possibilidade de estruturar a própria existência de forma mais consistente e segura tanto no que diz respeito à manutenção do nível de vida já alcançado, como à mais rápida realização de seus sonhos de consumo e afirmação pessoal. Ou seja, o trabalhador não é um elemento passivo dessa relação. Ele quer participar do jogo exatamente porque vê nele a chance de subir na vida, de estufar o peito após superar objetivos desafiadores e de alcançar níveis maiores de reconhecimento social. Neste sentido, o plano fornece uma espécie de disciplina para o sucesso na qual o autocontrole e a autoconfiança são o cimento que fixa os ladrilhos do caminho para os sonhos. Progredir na hierarquia ou, simplesmente, subir um nível após o outro aumenta a ambição e chega a ser uma obsessão quando a tensão permanente de conseguir se superar para ser um vencedor alimenta o prazer de quem pretende olhar o mundo de um degrau mais alto.

Mas nem tudo o que brilha é ouro. Num aparente paradoxo, o ponto mais alto em que cada trabalhador pode chegar, em geral, coincide também com seu maior nível de servidão voluntária. Isso é possível na medida em que, ao aderir aos desígnios da organização, o empregado se torna psicologicamente dependente da satisfação dos próprios desejos que já deixaram de ser uma possibilidade para se tornar uma necessidade vital e, portanto, imprescindível.

Como um dependente químico, ao absorver a substância almejada ele alcança certo grau de satisfação, mas isso não lhe basta. Ele precisa de novas doses e de doses mais fortes para continuar sentindo os mesmos efeitos experimentados no início de sua trajetória. Ele deseja o que o mata aos pouquinhos. E quem lhe oferece da substância não tem pressa que ele morra, mas faz o impossível para lhe fornecer quantidades que o destroem como ser humano na mesma proporção em que oferecem centelhas de prazer e viabilizam aumentos da produtividade. No âmbito das relações de trabalho, o preço mais barato a ser pago é constituído por uma ansiedade crescente, um isolamento intrigante e uma solidão que demanda compensações materiais incessantes na esperança de que estas ocultem de si próprio a progressiva sensação de esgotamento.

Cabe ressaltar que este efeito tão desejado pelo capital não costuma ser produzido por um único dispositivo destinado a disciplinar e a dirigir as melhores energias da classe trabalhadora. A submissão, obediência e adesão ativa à lógica empresarial só podem ser obtidas graças à articulação de diversos fatores que, a depender da situação, da dificuldade de repor determinado profissional, do nível salarial, etc., ganhará formas e profundidades diferenciadas. Para cada patamar de renda, o sistema oferece um sonho apropriado, uma meta cuja consecução possibilita certo grau de afirmação social e, sobretudo, deixa na boca um gostinho de quero mais. Envolvido nas artimanhas que mobilizam necessidades reais e desejos, esperanças e receios, o sujeito não percebe que cada prática disciplinar é alimentada por outra, que o conjunto delas garante a eficiência do sistema e que o próprio sofrimento deixa de ser o combustível da rebeldia para se tornar conseqüência natural da progressiva adequação aos elementos que, dia-após-dia, extraem dele mais trabalho e mais vida”.

- “Parece um pesadelo sem fim...!”, conclui o secretário ao romper o interminável instante de silêncio que estava para tomar conta da sala.

- “Se fosse, seria ótimo– rebate a ave num longo suspiro. De fato, bastaria abrir os olhos para espantar os fantasmas que atormentam a mente e experimentar uma sensação de alívio. O problema é que estamos diante de uma fortificação cujos tijolos foram empilhados pela coordenação dos elementos que se projetaram dentro e fora dos ambientes de trabalho e se fixaram no indivíduo a ponto de se tornar parte dele mesmo tornando-o pesado, frio, insensível, calculista, cada vez mais imediatista e incapaz de se indignar diante da injustiça até nas situações em que ele é a vítima a ser sacrificada no altar dos lucros.

Num rápido balanço do que afirmamos até o momento, é inegável que a precarização do trabalho ao longo dos anos 90 tenha levado a uma intensificação do mesmo, à elevação do sofrimento de quem continua empregado, à neutralização da mobilização coletiva em grande escala e ao fortalecimento das formas de alienação que mantêm o sujeito dobrado sobre si próprio a ponto de se distanciar progressivamente dos demais.

A leitura mais comum desta situação diz que, afinal, não há nada ou bem pouco que se possa fazer para mudar o rumo dos acontecimentos e aponta, de início, para a resignação e, em seguida, para uma adesão ativa à lógica do sistema na medida em que as pessoas acreditam que é natural que as coisas sejam assim. Logo, o importante não é reagir, mas agüentar, encontrar razões, sentidos, formas de auto-ajuda e motivações que dêem ao sujeito a energia suficiente para segurar a barra no dia seguinte e alimentar novos sonhos com a manutenção do próprio emprego. Nesta perspectiva, a situação de quem continua desempregado ou experimenta as incertezas da informalidade é, ao mesmo tempo, fonte de ansiedade e preocupação, incentivo a resistir à dor física e psíquica provocada pelo trabalho, motivo para fechar olhos e ouvidos diante das injustiças, estímulo a negar o sofrimento alheio e o próprio.

Por outro lado, longe de unir as pessoas fora dos locais de trabalho, a miséria e a marginalização levam a uma piora sensível dos que estão submetidos à sua ação, ao progressivo embrutecimento das relações com os demais e a condições de vida tão degradantes a ponto de possibilitar somente reações pontuais de curta duração e facilmente recuperáveis pela repressão ou a assistência social pública e privada. Assim, a violência explode nas periferias com requintes de crueldade. Crimes e assassinatos se multiplicam em várias camadas da sociedade em formas jamais imaginadas. O tráfico, auxiliado pela conivência de parcelas significativas das forças de segurança, impõe sua dominação. E a realidade parece desandar a ponto de levar não poucos intelectuais a acreditar que o país caminha para a barbárie. O pior disso tudo é que a soma destes sofrimentos gera a progressiva destruição dos laços de reciprocidade no seio da própria classe trabalhadora e, graças a esta, o desligamento do empregado do sofrimento de quem trabalha ao seu lado, de quem não goza do privilégio de ter carteira assinada e dos que a ampliação da acumulação e da injustiça levou à beira da desumanização.

A necessidade de afastar-se do outro é traduzida e reafirmada pelo senso comum com uma expressão que marca presença crescente até nos lábios das pessoas de bem: E eu com isso? Como a vida imita a arte, o isolamento do sujeito ganha novas verbalizações. Entre as mais reafirmadas pelo mundo da música passamos do Tou nem aí, aplicado exaustiva e amplamente a contextos que extrapolam aquele ao qual esta letra se refere, até os mais recentes gritos de guerra: ema, ema, ema, cada um com seus problemas! e ado, ado, ado, cada um no seu quadrado! A falta de compromisso com o viver-juntos e com o sofrimento de quem está ao nosso lado, já não precisa da mídia para ser ampliada, pois encontra no povo simples milhões de bocas dispostas a reafirmá-la. Desta forma, a banalização da injustiça, pode caminhar lado a lado com um sentimento de indignação cada vez mais anestesiado, com a instauração progressiva da servidão voluntária que eleva a indiferença e impede a construção de um sentimento de coletividade dentro e fora dos locais de trabalho.

Paradoxalmente, este processo leva a acreditar que as leis de mercado, a iniciativa privada, a globalização e os demais elementos que se beneficiam dos estragos produzidos pela incapacidade de se revoltar contra o que fere a dignidade humana são capazes de trazer a solução para os problemas sociais que eles próprios criaram. Se, de um lado, as ações assistenciais do estado e os programas de responsabilidade social promovidos pelos patrões seduzem as comunidades carentes e projetam uma áurea de santidade em volta deles, de outro, o culto ao deus capital tem no trabalhador o seu mais fiel militante. Como é na empresa que o indivíduo sonha e busca concretizar seus sonhos, ele tende a fazer da organização e de tudo o que esta pode oferecer, concretamente ou na sua imaginação, o núcleo central de sua vida, a sua razão de viver, o seu principal ponto de referência. O processo de identificação com os objetivos empresariais leva o trabalhador a idealizar as qualidades do local de trabalho, tanto em função da dissolução do seu espírito crítico, como de sua representação imaginária das relações e possibilidades de reconhecimento social que estas podem lhe oferecer”.

- “É por isso que eu acho que os sindicatos deveriam fazer mais agitação, mais informativos, mais discursos inflamados, mais denúncias em carros de som!”, afirma categórica a língua ao acreditar ter encontrado a solução mágica para um problema complexo.

-“E, ao fazer isso, talvez consigam exatamente o contrário do que pretendem – rebate inesperadamente a coruja. O que acabamos de constatar acima explica em grande parte porque o discurso agitativo é freqüentemente ignorado, recebido com aversão ou, na melhor das hipóteses, com o silêncio de quem não nega que há algo errado, ma se recusa a agir por sentir que, ao ir contra a empresa, pode frear a mão que embala seus sonhos ou, mais simplesmente, que o faz se sentir gente. Até sabe que o que recebe não compensa o aumento da exploração do trabalho, mas, no mínimo, o homem-massa está convencido de que é com o seu salário que ele conseguiu reformar a casa, comprar um carrinho, pagar os estudos dos filhos, adquirir o celular, o som incrementado e assim por diante. No extremo oposto, ele está tão convencido de que tudo o que pode ser na vida depende somente do que consegue ter que e já criou barreiras intransponíveis aos que, com sua racionalidade, procuram ameaçar estas convicções, despertar sentimentos de indignação que trazem de volta o medo, a insegurança e a indesejável sensação de responsabilidade pessoal na reprodução da injustiça que está sob os seus olhos.

Ao insistir na agitação e na informação nos moldes em que vêm sendo realizadas, a linguagem dura do sindicato ainda aposta em convencer a cabeça do peão esquecendo que o coração e a mente deste já são da empresa. O que os diretores dizem, denunciam, tornam público e pedem para ser revertido é verdadeiro, realmente acontece, é assim mesmo, confirma grande parte do trabalhador coletivo. Mas ao ver seus temores aumentados pela ação sindical, este mesmo trabalhador coletivo tende a se afastar cada vez mais na medida em que seus sentimentos mais íntimos entram em choque com o que vem sendo colocado, em que sua ansiedade aumenta a sensação de insegurança, em que seu coração está profundamente convencido de que assim tá ruim, mas ta bom. Além disso, dificilmente o indivíduo consegue ver nas falações os caminhos viáveis que permitem superar a injustiça denunciada e, via de regra, fica com a impressão de que, para além dos discursos inflamados, não há nem time capacitado, nem nada concreto que permita acreditar na possibilidade de além das palavras e reverter a realidade. Não por acaso, cresce a olhos vistos o número das pessoas que até param para ouvir os dirigentes discursarem, mas saem se queixando de ter perdido o próprio tempo”.

- “Pior é impossível!”, afirma o ajudante categórico.

- “Eu não diria isso, pois não há nada tão ruim que ainda não possa piorar...”, retruca enigmática a coruja ao ajeitar as plumas do peito.

- “Isso significa...”

- “Que precisamos mergulhar um pouco mais nas relações do cotidiano do trabalho para visualizar o tamanho dos desafios que estas colocam aos que procuram mudar a realidade. Por isso, trate de acordar de seu espanto porque agora vamos analisar...”.



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Um outro mundo é possível. um outro brasil é necessário!

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