Caro Rafael Passos
Ref.: Notícia publicada sobre repressão às rádios clandestinas em MG
"Recriando a realidade à sua maneira e de acordo com os seus interesses político-partidá rios, os órgãos de comunicação aprisionam os seus leitores nesse círculo de ferro da realidade irreal, e sobre ele exercem todo o seu poder. O Jornal Nacional faz plim-plim e milhões de brasileiros salivam no ato. A Folha de S.Paulo, o Estado de S. Paulo, o Jornal do Brasil, a Veja dizem alguma coisa e centenas de milhares de brasileiros abanam o rabo em sinal de assentimento e obediência." (Perseu Abramo).
Antes de criticar-te, gostaria de reconhecer teu mérito por disponibilizar o endereço eletrônico, permitindo ao leitor uma comunicação de mão dupla contigo.
Tenho debatido em vários ambientes a tese da Fenaj - Federação Nacional de Jornalistas que afirma ser a exigência do diploma garantia de qualidade na informação por parte do jornalista para a sociedade, o que está para ser decidido no STF - Supremo Tribunal Federal.
Assim, tenho exercitado a análise crítica da mídia também com um outro enfoque... Até que ponto este profissional é responsável por vender sua consciência, ao manipular a informação para manter seu emprego e benefícios dele decorrentes? Perseu Abramo e outros estudaram esta questão da manipulação por parte dos donos da imprensa em geral, mas eu prefiro focalizar, neste momento, o papel do jornalista como cúmplice deste processo. Seja ele diplomado ou não. Um corrupto ideológico passivo...
"Os estudos do professor Perseu Abramo... situam o jornalismo praticado pelo mercado como um instrumento de controle político das elites, contrário aos interesses maiores do povo brasileiro."
(Hamilton Octávio Souza em "Padrões de manipulação na grande imprensa", de Perseu Abramo, pág. 17, da Editora da Fundação que leva seu nome)
Há um terrível conflito entre os interesses políticos e econômicos do patrão e a ética/qualidade da informação para a população. E o jornalista não dispõe de mecanismos para se proteger desta pressão descomunal, tornando-se mais uma vítima da prenstituição, tanto nos EUA, quanto cá. [ http://www.cbj. g12.br/~borges/ base2003/ mod_doc.php? id=0160 ]
Por outro lado, é quase impossível, numa sociedade idolatra do capital fazer-se algo de efetivo para solucionar este problema, já que os senhores do Estado, do mercado e dos meios de comunicação se beneficiam deste despotismo em todos os setores materialmente mais relevantes da sociedade, onde raros se libertam dessa Matrix.
Como não o conheço e jamais tomei conhecimento da qualidade de teu trabalho, não posso generalizar coisa alguma a teu respeito, já que tenho apenas um caso único em mãos, o qual passo a comentar pela estranheza que me causou. Afinal, ninguém é perfeito. Ninguém é de ferro e todos temos direito aos nossos 15 minutos de fama e também de inferno astral. E também porque esta não é uma questão pessoal, apesar de, infelizmente ter de apontar para o trabalho de um profissional específico e dar nome aos bois para demonstrar minha tese, da forma mais concreta possível.
Na matéria abaixo, em momento algum ficou manifesto o ponto de vista dos acusados deste crime, como seria de se esperar de um artigo que prezasse pela ética e pela qualidade da informação para a sociedade, invisibilizando um movimento social legítimo, que luta contra a AMIRT e ABERT, respectivamente associações mineira e brasileira das emissoras de rádio e TV, expoentes do inconstitucional oligopólio da mídia. Seus membros dominam também a imprensa escrita, sendo, portanto teus patrões., congregados na ANJ - Associação Nacional de Jornais.
Quem ousa colocar uma emissora no ar sem autorização do Estado, luta contra a ditadura nos meios de comunicação e contra um Estado a serviço do interesse dos grandes empresários do setor. Leia-se Ministério das Comunicações, Anatel - Agência Nacional de Telecomunicaçõ es e a banda podre do Poder Judiciário Federal, todos parte do grande balcão de negócios que sempre foram os três podres poderes desta república das bananas e dos bananas.
Caso não saibas, como jornalista (diplomado ou não) deverias saber ou procurar saber, antes de escrever qualquer coisa sobre este assunto! Há algumas entidades que congregam as rádios de baixa potência, comunitárias de direito ou apenas comunitárias de fato, sendo a Abraço - Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária uma delas. Uma organização pobre e que sobrevive aos trancos e barrancos, com todas as dificuldades de quem luta para defender os excluídos contra o sistema estabelecido.
Há também o FNDC - Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, uma organização onde várias outras se articulam para tratar deste e de outros temas relativos ao conflito entre o capital e a ética nos meios de comunicação. A federação que congrega tua categoria (Fenaj) ocupa a Coordenação Geral desta entidade e a Abraço, a Secretaria Geral. [ www.fndc.org. br ]
Por que tu não deste a oportunidade aos réus ou a estas organizações do legítimo direito do contraditório? Como na Ditadura Pseudomilitar de 1964, julgaste e condenaste os "criminosos" com base apenas em acusações, recusando-se a permitir-lhes que se defendessem. Bem diz Marilena Chauí que o Estado brasileiro é oligárquico e autoritário! E tu foste um agente reprodutor desta truculência.
Geralmente, quem trata desta questão é o Ministério Público Federal... Tu afirmas que, agora, é o estadual. Esta informação está possui a qualidade adequada?
Fico pensando se apenas estás cumprindo cegamente as ordens que recebes para divulgares um único ângulo desta complexa questão, por ingenuidade, ignorância, cumplicidade ou outro motivo que minha mente não consegue alcançar... Divulgas apenas o que é de interesse do inconstitucional oligopólio da comunicação de quem estás a soldo.
Também fico medindo a distância que esta matéria se encontra (e não é caso único) da bandeira proclamada pelo Sindicato dos Jornalistas local no convite para a posse da nova diretoria que ocorreu dia 13/06/2008, na qual estava presente o presidente da federação e o vice-presidente da República. (Na realidade uma Reparticular, coisa que não se ensina em escolas de todos os níveis, reproduzindo apenas o conservadorismo e o engano determinado pelo sistema dominante. Vê "Análise dos Tipos de Poder", cujo endereço está no final.)
Eis a citação:
"O jornalista não é o dono da verdade. Mas deve ser seu mais intransigente guardião."
Mas tu, como tantos outros, foste obrigado por motivos ainda desconhecidos ou preferiste voluntariamente a meia-verdade que os judeus (e eu também) defendem em um provérbio popular tratar-se de uma mentira inteira. Certo é que a ética e a qualidade ficaram plenamente comprometidas, neste caso!
Então, caso tenhas o curso universitário, dás mais um argumento para demonstrar que a exigência diploma (ou mesmo a falta dele) não garante a qualidade da informação para a sociedade, como prega a Fenaj, que encerrou seu congresso nacional este fim de semana, com o objetivo de provar a todo custo que não acontece o que muitos como tu, diplomados ou não, praticam, para não perder a boquinha.
Amparado por estudos acadêmicos de Perseu Abramo e outros (citada acima) com mais credibilidade do que eu, sobre o resultado da cumplicidade desta categoria nas grandes corporações do setor, ofereço, na hipótese de teres interesse numa reflexão mais profunda sobre tudo isto, algumas sugestões de textos e minha definição do verdadeiro jornalista (com ou sem diploma):
O verdadeiro jornalismo, o jornalista de fato e a mídia realmente livre divulgam, com a freqüência e ênfases adequadas, idéias, fatos, pessoas e organizações que os poderosos se esforçam para esconder, minimizar ou criminalizar. O resto é assessoria de imprensa, omissão, manipulação, enganação, entretenimento, mero diletantismo filosófico ou traição aos interesses mais elevados do povo brasileiro.
Atenciosamente
Heitor Reis
Militante da Abraço e FNDC
Polícia Federal fecha o cerco contra rádios clandestinas em Minas
| | | A Polícia Federal (PF) cumpre na manhã desta quinta-feira 16 mandados de busca e apreensão no combate a rádios clandestinas em Minas. As emissoras estão localizadas na cidades de Bom Jesus do Galho, Caratinga, Coronel Fabriciano, Ipatinga, Timóteo, São Domingos das Dores e Ubaporanga.
Os policias fazem buscas por transmissores e aparelhos de radiodifusão. O material apreendido ficará sob a responsabilidade da Agência Nacional de Telecomunicaçõ es (Anatel).
Cerca de 22 pessoas são investigadas por crimes de instalação e utilização de aparelhos de telecomunicaçã o sem autorização legal e de desenvolvimento clandestino de atividade de telecomunicaçã o.
Caso sejam condenados, os suspeitos podem pegar até quatro anos de prisão. O inquérito será remetido ao Ministério Público Estadual (MPE), que vai oferecer denúncia.
Além da Polícia Federal, 17 fiscais da Anatel participam dos trabalhos. Um balanço final deve ser divulgado no final da tarde. | |
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