Cartas de filosofia -- Ademar Bogo
No 26
A IDADE DO CHE
A idade, para um mortal, é um tempo compreendido entre dois tempos: anterior e posterior. É um movimento irreversível. Além de não parar, controla-se a si próprio. É uma força que passa buscando a força que vem. É a medida exata da mudança criada no próprio movimento de mudar.
Idade é tempo marcado em anos. Um ano é o tempo que a terra precisa para dar uma volta em torno do sol. Um mês, é medido pelo ciclo lunar, quatro fases e um novo recomeço.
Idade é tempo que passa, é tempo que vem. Quanto mais passa, mais vem, num movimento sem fim.
Os tempos das idades se combinam numa harmoniosa negação do tempo feito com o tempo a se fazer. Assim se faz o ser, depois, o ser do ser.
No mês de junho, tempo de São João e de Ernesto Che Guevara. Completa agora, 80 anos de nascido. Está ainda muito jovem, zombando da própria idade que tememos. E será assim por toda a eternidade, o mesmo. Isto é possível pela temporalidade.
A temporalidade é o ser agora. É ver o tempo no seu todo no momento presente. Por isto o Che é um ser sempre passando. É o que é para cada um que o vê, o sente e o assimila.
Morrer é sair do tempo. É a temporalidade esquecida. É a curva da estrada que não deixa ver o pedaço caminhado. É passado, passado.
Che é um ser teleológico. Ou seja, um ser ligado a uma finalidade. Por isto, quem o define, não é a idade, mas os fins que ele pretendia. Se os fins continuam atuais, a finalidade ainda há de chegar para se realizar.
Viver então é não se deixar esquecer. E isto só é possível de fazer, se a finalidade pretendida, se vincular a múltiplas temporalidades e daí se tornar eternidade.
O Che no tempo de suas atividades, na temporalidade do seu fazer, foi solidariedade, busca e solução. Che foi revolução, trabalho, sacrifício e persistência. Foi causa e conseqüência; ternura e compaixão. Foi líder, foi povo, foi nação e humanidade. E, esta universalidade, ainda não chegou a sua finalidade.
Na sua teleologia, Che queria o socialismo em todos os lugares. A igualdade teria que ser real, sem preconceitos e, o ser humano verdadeiramente emancipado. As propriedades deixariam de ser privadas; as escolas espaços de convivência; a sociedade movida por consciência, sem competição e alienação.
Em todos os espaços brotaria a dignidade. Nos campos germinaria a vida, deles se extrairia comida com respeito á natureza. As palavras: amor e gentileza estariam nas capas de todos os dicionários. E, os atos revolucionários, seriam deveres cotidianos. Os povos seriam sempre educandos, na grande escola do universo, cada vez mais solidário.
Che vive no tempo e na temporalidade, pois, das coisas que sonhou, pouco se realizou, muito menos que a metade. Logo, para cada conquista desmanchada, terá sua existência prolongada. Para cada avanço adquirido, será ainda mais querido.
Oitenta anos para o Che é uma simbologia. Não há como contar os anos da sabedoria, nem mesmo defini-la em quantidade. Che , sendo a finalidade, se confundirá sempre com os objetivos. Por isto, acompanhará os vivos de geração em geração. Uns o chamarão de irmão, outros de companheiro, seja nos triunfos ou nos lamentos. Assim será, em cada luta e na revolução, até o dia, se tiver, o fim dos tempos. Ademar Bogo
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