OS CLÁSSICOS COMO RÉGUA E COMPASSO
Leandro Konder
Não basta dizer que o mundo está errado. É preciso dizer quais são os maiores erros e tentar indicar em que direção eles podem ser superados.
Há injustiças, desrespeito, miséria, opressão. Nossos inimigos cometem (ou mandam seus capangas cometerem),
quase todos os dias, atos de intimidação contra nós. Somos ameaçados, agredidos. E, para nos defendermos, lutamos.
Gostaríamos de evitar a violência. Sabemos, porém, que ela nos é imposta. A vida nos ensina que o nosso maior
problema só poderá vir a ser resolvido num combate prolongado. Os capitalistas, os grandes proprietários de terras, os empresários rurais, criam freqüentemente situações de provocação contra nós. Às vezes, como pessoas, eles gostariam de fazer acordos conosco, mas o sistema a que
eles pertencem dificulta o entendimento.
O sistema atual é cínico e perverso. Sua base – o capitalismo – tem de ser modificada. O capitalismo cria para a humanidade uma terrível insegurança.
Os seres humanos não podem viver sem valores. Para viver, eles precisam fazer escolhas, precisam ter uma escala de valores.
Marx chamou a atenção para a diferença que existe entre o valor de uso e o valor de troca. O valor de uso é o valor verdadeiro: é a qualidade dele que conta para nós.
O valor de troca é aquele que se traduz em dinheiro.
No capitalismo, como tudo gira em torno do mercado,
tudo tende a virar mercadoria, o valor de troca tende a absorver o valor de uso.
Podemos esclarecer essa situação com um exemplo.
Quando recebo meu pagamento, posso comprar um presente de aniversário para minha mulher ou para meu filho, posso chamar um casal de amigos para jantar, posso alugar um DVD para ver junto com colegas de trabalho, e em todos esses momentos meu dinheiro estará funcionando como valor de uso.
Agora vamos passar a um outro sujeito, a um banqueiro, a um industrial milionário, a um gigante da importação/exportaçã o. Ele se senta no salão de diretor-presidente da sua mega-empresa, dá uma olhada nos relatórios de seus vice-diretores de confiança, manda fazerem algumas modificações nos investimentos programados para o mês que vem.
Aparentemente, o dinheiro que no nosso exemplo está nas mãos do mega-empresário é idêntico àquele que está nas mãos do trabalhador. Olhando de repente, a gente tem a impressão de que é só a quantidade que os diferencia. Mas não é bem assim.
A diferença (brutal) na quantidade de dinheiro não é causa, é conseqüência. O empresário (riquíssimo) transforma seu dinheiro em capital, quer dizer, arranja um modo de multiplicá-lo. O dinheiro rende. Nas mãos do trabalhador, entretanto, para atender às simpáticas demandas do valor de uso, os salários mínguam, derretem, somem.
Por isso, mesmo quando o trabalhador melhora um pouquinho seu nível de renda, ele continua sendo vítima da exploração inerente ao sistema. As qualidades do valor de uso vão se tornando abstratas. Os valores éticos (qualitativos) vão se tornando fracos, vão se apagando.
O dinheiro se encarrega de quantificar tudo, de reduzir tudo (ou quase tudo) a preços.
O dinheiro seria, então, o valor que está prevalecendo no nosso mundo. E, como o dinheiro, de fato, não é um valor, precisamos lhe impor limites, lhe retirar privilégios para voltarmos a ter valores genuínos, autênticos, verdadeiros
Nossos teóricos mais lúcidos – nossos “clássicos”,
como costumamos dizer – nos ensinam muitas coisas e
coisas muito importantes. Eles despertam em nós a vontade de conhecer melhor os aspectos da realidade que queremos transformar, nos levam a estudá-los. E, aproveitando as categorias, os conceitos e os métodos, estaremos nos compreendendo mais profundamente e poderemos agir com maior eficiência política.
Nossos “clássicos” podem nos dar “a régua e o compasso” – como diz o ex-ministro Gilberto Gil – para podermos avaliar as nossas forças e as de nossos inimigos de classe e o melhor momento de infligirmos nossos golpes de maneira mais eficiente e arrasadora.
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