sexta-feira, 24 de outubro de 2008

liminar de Reintegração de Posse em favor da Prefeitura para despejar famílias da Comunidade Camilo Torres




Era uma madrugada. Muitas horas para o amanhecer.
Gosto de café na boca - usado para tapear o frio.
Lonas, tábuas, enchadas nas mãos.
E a vermelha esperança cravada no peito.
Lembro-me ainda da ansiedade, do medo. Sim, medo. Dessas crianças, mulheres e homens vencidos pelo desespero.

E, acredite em mim: só não existindo outra opção, mães "escolheriam" o frio de um barraco de lona, a truculência da polícia e o risco eminente de um despejo...

Só quem passou 10 anos na fila do Orçamento Participatico da PBH, que teve seu barraco levado pela enchente ou quem foi despejado por nao pagar o aluguel (mesmo sacrificando a comida da família) submete-se a uma ocupação.

O que mais me emociona sempre nessa situação é a esperança e, como disse antes, essa esperança brota do desespero, da injustiça...
Possibilidade de recomeçar a vida, ter um lar... Meninos correndo na capoeira há anos abandonada. Outros disputando a enxada para brincar de construir barracos... desde pequenos aprendendo a organizar os sonhos...

As vovós, mesmo não conseguindo carregar peso, nunca deixam de servir aquela água geladinha. Uma pausa para o trabalho duro. Hora de prosear, de imaginar o galinheiro que se pretende construir, a horta, a escola... a vida.

Vejo também novos casais. Aprendendo a construir o amor enquanto constroem seus barracos . E desta terra, seus filhos nasceram. GRITARAM PELA PÁTRIA LIVRE.

Hoje descobri que a ameça de despejo abala a força dessa gente. No primeiro dia da ocupação policiais rasgaram lonas, na semana seguinte, foi a vez de tratatores ameaçadores. Agora, com a liminar de reintegração de posse nas mãos, não quero nem pensar na maquinaria de guerra que os poderosos terão em sua posse.

O que mais me intriga é como as mesmas mãos humanas podem construir e, ao mesmo tempo, serem tao destrutivas?

Como podem existir 60.000 sem tetos e 75.000 imoveis abandonados? Porque tanta gente sem casa e tanta casa sem gente?

Infelizmente, a maldade humana está longe de minhas compreenções. Prefiro acreditar que é possivel contruir uma cidade melhor. Ter fé nas pessoas, na capacidade de mudar e se contruir um mundo em que seja menos dificil amar. E nesse mundo ser pobre não será crime, cadeia nao dará lucro e as pessoas nao serão jogadas para a rua sem ter onde morar.

Queria dizer mais coisa. Alguma palavra que encorage a lutarem. Resitirem. Mas o grito de revolta está sufocado, mudo. Surge então, apenas um soluçar de dor...

Em nome dos meus sonhos, dos meus grandes amores, dos filhos dessa terra e os filhos que essa terra me dará: Resista Camilo!

Um coração cansado de guerra, as retinas fatigadas e as vida as vezes amarga demais. Mas que desanuvia ao lembrar da coragem desse meu povo na luta para ter um lar.
Por todos nós... Resista Camilo!
Raquel Bandeira












Comunicado

Informamos a tod@s que a 2ª Vara da Fazenda Municipal da comarca de Belo Horizonte concedeu liminar de Reintegração de Posse em favor da Prefeitura para despejar famílias da Comunidade Camilo Torres que ocupam a fração pública do terreno.

Contamos com a solidariedade de tod@s que cultivam o sonho pela construção de uma nova cidade...

Visite a Comunidade Camilo Torres.

End.: Av. Perimetral, 450 Vila Santa Rita; Jatobá – Barreiro

Contatos: 9708-4830 / 8652-4783

comunidadecamilotorres@hotmail.com


visite www.brigadaspopulares.org

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