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sexta-feira, 8 de maio de 2009

A intencionalidade do capitalismo é o crime quase suicida

ESTRATÉGIA E ANÁLISE
4ª, 6 de Maio de 2009 - ISSN 00331983
A intencionalidade do capitalismo é o crime quase suicida

Bruno Lima Rocha, 5 de maio de 2009

A vontade desse artigo é expor um ponto de vista e um marco de análise
que vai além da mera caracterização da crise cíclica do capitalismo.
Nos recusamos a apontar um essencialismo determinista para um fenômeno
complexo. Além disso, a base dessa suposta crise do capitalismo
financeiro é a intencionalidade. A partir desse ângulo vamos expor um
ponto de vista, partindo da análise descritiva, indo além das supostas
“leis do pensamento econômico” aceito pelo status quo. O mesmo vale
para qualquer pressuposto neoclássico (neoliberal) e seus oponentes
oficiais.
Entendemos que uma sociedade também se move num equilíbrio entre a
intenção de alguns operadores em postos-chave (como as autoridades
econômicas dos EUA) e a inércia estruturante gerada pelos dominantes.
Por isso caracterizamos que o capitalismo é um marco civilizatório, um
mecanismo de transformação dos aspectos da vida em mercados e um
complexo sistema de dominação. Expomos uma parcela de explicação
plausível da “tal da crise”, ou seja, da mega estafa em escala global.
A base do capitalismo globalizado é sua versão financeira. Não houve
queda na taxa de lucros das mercadorias no formato de carteira de
títulos financeiros até o capital fictício (financeiro) perder
qualquer tipo de lastro. A quebradeira surge do aumento da taxa de
juros (desregulados, flutuantes) nos Estados Unidos. Esse aumento é
uma decisão de governo que controla o Estado mais poderoso do planeta,
e a razão disso é o financiamento da Guerra de Ocupação do Iraque. Com
o próprio Tesouro estadunidense sofrendo rombo devido ao financiamento
das transnacionais petrolíferas e das prestadoras dos serviços de
guerra, aumentar a taxa de juros no final do governo Bush Jr. teve
como meta remunerar os compradores de títulos de sua dívida pública.
Ao mesmo tempo, esta remuneração atende o crescimento da China, que é
a maior credora dos EUA. Ou seja, a “crise cíclica” foi fruto de uma
seqüência de decisões políticas, já que o único país rico do planeta
que estava com super produção de mercadorias era a própria China,
parceira interdependente do Império estadunidense que ameaçava se
desintegrar caso Obama não saísse vitorioso nas eleições de 2008.

A farra dos chamados ativos tóxicos foi um jogo de má fé onde todos
sabem que os títulos negociados não têm valor e nem lastro,
materializa a verdadeira “essência” do capitalismo. Antes, a
picaretagem triangulada entre Empresas – Seguradoras – Análise de
Risco – Consultoria ganhou forma e lugar no caso Enron, emblemático do
início do século XXI. Um dos maiores conglomerados econômicos
estadunidenses aplicou mais de 1600 empresas laranjas como sendo parte
de sua dívida ativa, portanto, com suposto dinheiro que teria para
receber. Ao fabricar falsos balanços, quebrar a empresa e roubar o
dinheiro dos acionistas no varejo, a Enron materializa o conceito de
que os grandes operadores do capital financeiro são a versão
sofisticada da agiotagem em larga escala.

Empresários, executivos, tecnocratas e analistas de plantão sabiam de
tudo quando arriscavam as riquezas sob seu controle na roleta russa do
cassino da globalização. Aqui, nos EUA, na Europa e em qualquer lugar
do mundo. Houve intencionalidade desde o começo. Processo semelhante
aconteceu no sudeste asiático na segunda metade dos anos ’90. Começa
quando a Tailândia libera a flutuação de sua moeda nacional. A falsa
crença, de base fraudulenta, acredita ou finge acreditar publicamente,
que existe um suposto equilíbrio e que as leis “científicas” vão
designar o valor justo para algo. Pura balela. Os então chamados
tigres asiáticos são alvo da ação de mega apostadores, incluindo a
falência criminosa do Banco Barings, fruto já de operações financeiras
do mercado de derivativos. Como sempre ocorre, um operador pagou de
bode expiatório, sendo acusado de sozinho quebrar a Malásia.

A “tal da crise” atual é puro comportamento fraudulento acelerado pela
velocidade das novas tecnologias e da perda do lastro do capital
fictício (financeiro).


O Sistema Swift de compensação bancária via satélite

Na origem da picaretagem dos derivativos atuais está o conjunto do
sistema financeiro e bancário mundial. Chama-se Swift (Society for
World Wide Inter Bank Financial Telecommunicaton – Sociedade para a
Telecomunicação Global Interbancária e Financeira). O mecanismo
central vem de 1973, quando as 10 maiores instituições financeiras do
mundo criaram, em plena escassez do petróleo (1973), uma forma global
de compensação bancária automática e mundial. Para garantir o bom
funcionamento, este sistema opera um satélite e não sofre regulação de
governo algum no ato da transação. Contempla 99,9% das operações
bancárias do mundo, agindo como prestador de serviços. A velocidade
adquirida com as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs)
acelerou de tal forma as transações financeiras que no auge dos
derivativos, chegaram a negociar um ativo tóxico a cada 4 segundos. O
tamanho do rombo se fez notar no final de 2007 e estourou de vez no
fim de festa do governo de Bush Jr.

Mas, antes da bolha imobiliária dos EUA ser estourada pelo aumento dos
juros em função dos custos da Guerra de Ocupação no Iraque, por mais
de vinte e cinco anos, o Sistema Swift acelerou as transações
bancárias, sendo o portador e transmissor do dinheiro eletrônico do
mundo. Todos os capitais em formato de depósito bancário, com o Swift,
ganharam a capacidade de circular livremente pelo mundo. Neste bolo de
dinheiro digitalizado, incluem-se as contas secretas de serviços de
inteligência, os tesouros da corrupção nos países subdesenvolvidos e
todos os volumes existentes nos chamados paraísos fiscais. Estas ilhas
de ilegalidade capitalista assumida servem como esgoto cloacal, onde
um dinheiro com origem suja pelas regras do próprio sistema começa a
circular de forma legalmente aceita, através da primeira infovia
globalizada.

Uma vitória pontual: fechar os paraísos fiscais e freiar a engrenagem
do swift

Para acabar com a farra da jogatina especulativa, bastava com fechar
os paraísos fiscais e proibir a circulação através do Swift. Isso
seria a morte do jogo dentro das próprias regras do capitalismo
globalizado. Como nenhum sistema de suicida nem se autodestrói, isso
somente vai acontecer quando os povos em luta forçarem os governos de
turno a mudar a correlação de forças, diminuindo a lucratividade do
capital fictício, que é o capital financeiro.
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adaga.

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Editor Bruno Lima Rocha
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