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terça-feira, 16 de junho de 2009

A era da intercomunicação

Manuel Castells1

Tradução: Márcia Macedo

Por que os blogs, o RSS e outras tecnologias

podem mudar os padrões de informação com que

a humanidade se acostumou há séculos? O que

isso tem a ver com a crise da política tradicional e

A

a possibilidade de uma alternativa?2

informação e a comunicação sempre foram vetores dos poderes dominantes, dos poderes alternativos, das resistências e das mudanças sociais. O poder de influência sobre o pensamento das pessoas - que é exercido pela comunicação - é uma ferramenta de resultado incerto, porém fundamental. É apenas através do exercício da influência sobre o pensamento dos povos que os poderes se constituem em sociedades, e que as sociedades evoluem e mudam. A repressão física ou mental é

certamente uma importante dimensão do poder dominante. No entanto, se um povo modifica radicalmente seu modo de ver as coisas, se ele passa a pensar de maneira diferente e por si mesmo, não há poder que possa se opor.

Torturar um corpo é bem menos eficaz do que moldar um pensamento. Eis o motivo pelo qual a comunicação é a pedra de toque do poder. O pensamento coletivo (que não é a soma dos pensamentos individuais em interação, mas sim um pensamento que absorve tudo e é difundido por toda a sociedade) se organiza na comunicação. É da comunicação quê vêm as imagens, as informações, as opiniões e é por rneio desses mecanismos de comunicação que a experiência é divulgada e transmitida ao coletivo na coletividade. Tudo isso se aplica fortemente em nossas sociedades, no seio das quais as redes de comunicação atravessam todos os níveis, do global ao local e do local ao global. Conseqüentemente, as relações dentro do poder dominante, elemento que constitui toda e qualquer sociedade e determina suas evoluções, são cada vez mais construídas na esfera da comunicação.

Mídia é poder, mas manipulação

tem limites

Na sociedade contemporânea, á política depende diretamente da mídia. As agendas do sistema político e mesmo as resoluções que dele emanam são feitas para a mídia, na busca de obter o apoio dos cidadãos ou, pelo menos, atenuar a hostilidade frente as decisões tomadas. Isso não quer dizer que o poder se encontre incondicionalmente nas mãos da mídia, nem que o público tome posições em função
do que é sugerido pela mídia. Pesquisas em comunicação mostraram há muito tempo até que ponto o
público é ativo e não passivo. Além disso, os meios de comunicação possuem, internamente, sistemas

que controlam sua capacidade de influenciar o público, pois antes de qualquer coisa, eles são empresas submetidas aos imperativos da rentabilidade e precisam ter audiência ou estender sua difusão. Em geral, eles são diversificados, competitivos, e devem ter tanta credibilidade quanto seus concorrentes. Eles freqüentemente se impõem outras restrições, no que diz respeito à ética profissional ou jornalística (mediadores, conselhos de ética etc.). Um meio de comunicação não é, portanto, algo fadado a distorcer ou manipular informações.

No entanto, precisamos focar nossa atenção nas tendências. O jornalismo militante, ideológico, á mídia engajada, por exemplo, foram durante muito tempo tidos como uma mídia sem a qualidade da "objetividade" - logo, sem consumidores. Os jornais que se denominam "órgãos de partido" praticamente desapareceram ou enfrentam graves crises de distribuição. No entanto, a situação começa a mudar: o militantismo ou engajamento ideológico pode se tornar um modelo altamente rentável. Por exemplo, a Fox News, uma das principais redes de televisão dos Estados Unidos (filial da News Corp, que pertence a

Rupert Murdoch), conquistou uma grande parte da Audiência conservadora norte-americana ao defender, sem a menor preocupação com a objetividade, _as teses dos neoconservadores favoráveis à invasão do

Iraque, em 2003.

A segunda tendência que pode ser observada atualmente está na perda da autonomia por parte dos jornalistas profissionais com relação aos seus empregadores. Nesse âmbito joga-se boa parte do complexo jogQ das manipulações midiáticas. Um estudo recente procurou explicar que, em meados de 2004, 40% dos norte-americanos3 ainda acreditava que o Sadam Hussein e a Al Quaeda trabalhavam lado a lado e que Saddam possuía armas de destruição em massa no Iraque. Isso um ano depois de o contrário ter sido provado. Esse estudo enfatiza as ligações entre a máquina da propaganda do governo Bush e as produções do sistema midiático.

Quando a omissão é a arma decisiva

No entanto, isso tudo é apenas a ponta do iceberg, pois a maior influência que a mídia exerce sobre a política não é proveniente do que é publicado, mas do que não o é, de tudo o que permanece oculto, que passa despercebido. A atividade midiática repousa sobre uma dicotomia: algo existe no pensamento do público se está presente na mídia. O seu poder fundamental reside, portanto, na sua capacidade de ocultar, de mascarar, de omitir.

A necessidade de algo ter de existir na mídia para ,'_ existir politicamente induz urna relação- orgânica à linguagem midiática, encontrada tanto na televisão quanto no rádio, na mídia impressa ou na internet. Os meios de comunicação de massa fazem uso de um jargão específico que não chega a ser um dialeto próprio, mas algo semelhante.

A mensagem midiática mais simples e também a mais poderosa é a imagem. E o rosto é a mensagem mais simples que a imagem pode transmitir. Sendo assim, existe uma ligação orgânica entre a midiatização da política, a personalização dá mídia e a r personalização da política. A partir do momento em que se passa a cultivar uma vida política baseada em querelas pessoais e de imagem ou em manipulações midiáticas, os programas de governo perdem sua importância, pois ninguém se refere a eles e os cidadãos não lhes dão mais importância, com toda a razão.

O triunfo da "personalização" da política reside no fato de que a forma mais convincente de combater uma ideologia passa a ser o ataque contra a pessoa que encarna uma mensagem. A difamação e os boatos tornam-se uma arte dominante na política: uma mensagem negativa é cinco vezes mais eficaz do que uma mensagem positiva. Todos os partidos utilizam essa estratégia: eles manipulam e até mesmo fabricam informações. E não é a mídia quem cuida disso. Esse trabalho cabe aos intermediários, às empresas especializadas. O resultado é uma ligação direta entre a "midiatização" da política, sua personalização e a difamação ou a prática do escândalo político, cuja banalização acarretou, nos últimos quinze anos, assassinatos de pessoas eleitas, crises de governo e até mesmo de regime político. Isso nos leva à atual e profunda crise da legitimidade política em escala mundial, uma vez que há uma ligação forte e evi dente, mesmo não sendo exclusiva, entre a prática do escândalo, a midiatizaçáo exacerbada da Cena pública e a falta de confiança no sistema por parte dos cidadãos. Essa desconfiança pode ser ilustrada por uma pesquisa feita pelos serviços da Organização das Nações Unidas (ONU), segundo a qual dois terços dós habitantes do planeta afirmam não se sentir representados pelos seus governantes.

Intercomunicação e crise de legitimidade política

Trata-se, então, de uma crise de legitimidade. Mas embora o mundo afirme não ter mais confiança nos governos, nos dirigentes políticos e nos partidos, a maioria da população ainda insiste em acreditar que pode influenciar aqueles que a representam. Ela também crê que pode agir no mundo através da sua força de vontade e utilizando Seus próprios meios. Talvez essa maioria esteja começando a introduzir, na comunicação, os avanços extraordinários do que eu chamo de Mass Self Communication (a intercomunicação individual). Tecnicamente, essa Mass Self Communication está presente na internet e também no desenvolvimento dos telefones celulares. Estima-se que haja atualmente mais de um bilhão de usuários de internet e cerca de dois bilhões de linhas de telefone celular. Dois terços da população do planeta podem se comunicar graças aos telefones celulares, inclusive ehi lugares onde não há energia elétrica nem linhas de telefone fixo. Em pouco tempo, houve uma explosão de novas formas de comunicação. As pessoas desenvolveram seus próprios sistemas: o SMS, os blogs, o skype... O Peer-to-Peer ou P2P4 torna

possível a transferência de qualquer dado digitaliza-,itm maio de 2006, havia 37 milhóes de blogs (Em janeiro de 2006, havia 26 milhões). Em média,um blog é criado por segundo no mundo, o que significa 30 milhões por ano. Até três meses depois deles terem sido abertos, 55% dos blogueíros continuam a alimentar seus blogs, Essa prática é 60 vezes maior do que era há seis anos. E ela dobra de seis em

seis meses.

Como, no início, a língua inglesa era o idioma dominante na internet, atualmente, mais de um terço dos sites da web são em inglês. O chinês vem em seguida, depois o japonês, o espanhol, o russo, o francês, o português e o coreano... O que realmente importa não é tanto a existência de todos esses blogs, mas a ligação que há entre eles, e o que eles condensam e difundem com a totalidade de interfaces comunicacionais. Esta interligação é viabilizada pela

tecnologia RSS5.

A Mass Self Communication constitui certamente uma nova forma de comunicação em massa — porém, produzida, recebida e experienciada individualmente. Ela foi recuperada pelos movimentos sociais de todo o mundo, mas eles não são os únicos a utilizar essa nova ferramenta de mobilização e organização. A mídia tradicional tenta acompanhar se movimento e, fazendo uso de seu poder comercial e midiático, passou a-se envolver com o maior número possível de blogs. Falta pouco para que, através da Mass Self Communication, os movimentos sociais e os indivíduos em rebelião crítica comecem a agir sobre a grande mídia, a controlar as informações, a desmenti-las e até mesmo a produzi-las.

Reaberta a batalha mais antiga da História

O movimento altermundista contra o capitalismo global, com toda a sua diversidade, utiliza há - muito tempo a internet e todos os recursos da Mass Self Communication - não só como ferramenta de organização, mas também como um espaço para debates e intervenções. Também foi desenvolvida por esse mesmo meio uma capacidade de exercer influência sobre a mídia dominante, passando pela Indymedia ou uma série de outras redes alternativas e associativas. A constituição de redes de comunicação autônomas chega também aos meios de comunicação mais tradicionais. As televisões de rua e as rádios alternativas - como a TV Orfeo ern Bolonha, a Zaléa TV em Paris, a Occupen Ias Ondas em Barcelona, a TV Piqueteros

em Buenos Aires - e uma enorme quantidade de mídias alternativas, ligadas em rede, formam um sistema de informação verdadeiramente novo. Mesmo o ex-presidente dos Estados Unidos, Albert Gore, aderiu a essa tendência, criando sua própria rede de televisão, na qual atualmente cerca de 40% do conteúdo é alimentado pelos telespectadores. As campanhas presidenciais também se renderam à influência desse novo meio de comunicação. Por exemplo, em 2003-2004, a candidatura de Howard Dean não teria decolado se não fosse a sua capacidade de mobilização por meio da internet6.

Em segundo lugar está a "mobilização política instantânea", via telefone celular, que aparece há dois anos como um fenômeno decisivo7. Essa "onda" mobilizadora, apoiada por redes de comunicação entre telefones celulares obteve efeitos impressionantes na Coréia do- Sul, nas Filipinas, na Ucrânia, na Tailândia, no Nepal, no Equador, na França... Pode obter um efeito imediato, como em abril passado na Tailândia, com a destituição do primeiro-ministro Thaksin Shinawatra pelo rei Bhumibol Adulyadej. Ou na Espanha, com a derrota, nas eleições legislativas em março de 2004, do Partido Popular de José Maria Aznar. A suspeita de que as autoridades estivessem manipulando informações, com o intuito de atribuir ao ETA a culpa pelos atentados em Madrid, fez com que uma infinidade de mensagens circulasse pelos telefones celulares. Isso resultou na organização de uma enorme manifestação, em um dia no qual, teoricamente, devido ao choque e ao luto, seria impossível falar sobre política.

Isso não quer dizer que tenhamos de um lado a mídia aliada ao poder, e de outro, as Mass Self Media, associadas aos movimentos sociais. ao contrário: cada urna opera sobre uma dupla plataforma tecnológica. Mas a existência e o desenvolvimento das redes de Mass Self Communication oferecem à sociedade maior capacidade de controle e intervenção, além de maior organização política àqueles que não fazem parte do sistema tradicional. Neste momento em que a democracia formal e tradicional está particularmente em crise, em que os cidadãos não acreditam mais em suas instituições democráticas, o que percebemos diante da explosão das Mass Self Communications assemelha-se à reconstrução de novas -formas políticas mas ainda não é possível dizer no que elas resultarão. No entanto, de uma coisa podemos ter certeza: a sorte da batalha será jogada no terreno da comunicação, e terá peso a nova

diversidade dos meios tecnológicos. Sem dúvida, essa batalha é a mais antiga de toda a história da humanidade. Desde sempre, ela visa à liberação de nosso pensamento.

' Manuel Castells é professor de Comunicação, titular da cadeira Wallis Annenberg de Comunicação, Tecnologia e Sociedade da Annenberg School for Communication.

2 O presente texto, relido e corrigido pelo autor, foi retirado de sua intervenção no Seminário "Lês médias entre lês citoyens et lê pouvoir" [A mídia entre os cidadãos e o poder], organizado pelo Fórum Mundial da Política e a província de Veneza em San Servolo (Itália), em 23 e 24 de junho de 2006.

3 De acordo com,uma pesquisa realizada pela Universidade de Ma-fyland, em outubro de 2003,60% dos norte-americanos — e 80% dos que assistiam a Fox News — acreditavam em pelo menos uma dessas inverdades: 1. Foram encontradas armas de destruição errí massa no Iraque; 2. Existem provas de que haja uma aliança entre o Iraque e a Al-Qaeda; 3. A opinião pública mundial apoia a intervenção militar norte-americana no Iraque. Ler, de Eric Klinenberg, "A contestação da ordem midiática", Lê Monde Diplomatique Brasil, abril de 2004

    4 P2P designa um modelo de rede de informática onde os elementos (ou nós) não têm um papel exclusivo de cliente ou servidor. Funcionam das duas maneiras, sendo ora cliente.ora servidor dos demais nós

    ' dessa rede, contrariamente aos sistemas do tipo "cliente-servidpr", no sentido comum do termo.

    5 Uni fluxo RSS ou uma fonte RSS (RSS feed, em inglês), que é uma sigla para Really Simple Syndication (Gerenciamento Realmente Simples), ou para Rich Site Summary (Sumário de um Site Atualizado), é um formato de gerenciamento de conteúdo web. Esse sistema possibilita que os sites de informação ou blogs distribuam notícias automaticamente, e que os internautas tenham acesso às atualizações de suas fontes preferidas sem a necessidade de se visitar o website. Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/RSStNotadaRedacao].


    6 Tido como 'favorito na corrida pela candidatura à presidência pelo

    partido democrata em 2004, Dean foi depois derrotado por John

    Kerry — por sua vez, batido, nas eleições, por Geòrge Bush [Nota da

    Redação].

    Ver Manuel Castells, Jack Linchuan Qiu, Mireia Fernández-Ardevol e

    Araba Sey, Mobile communication andsociety: a global perspective, MIT

    Press, Boston, 2006.

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