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sábado, 29 de agosto de 2009

Guerra Santa” entre emissoras de TV (Record x Globo)

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Globo e Record têm trocado ataques em pleno horário nobre da televisão brasileira. As agressões foram motivadas pela denúncia de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro contra o bispo Edir Macedo e mais nove dirigentes da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A denúncia feita pelo Ministério Público Federal (MPF) afirma que os acusados usam as doações dos fiéis para benefício próprio.

Enquanto o fundador da Universal e dono da Record, Edir Macedo, é incriminado pela Globo por supostos atos de corrupção, a Record relembra as ligações da empresa da família Marinho com a ditadura militar.

Esta não é a primeira vez que Globo e Record trocam agressões sob o pretexto de divulgar informações públicas ao telespectador. Desde que a Record despontou como uma concorrente de peso da Globo, as duas das maiores empresas de comunicação do país têm praticado o que os especialistas da comunicação chamam de “Guerra Santa”.

Em entrevista à Radioagência NP, o professor de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), Silvio Mieli, analisou o caso. Ele afirma que a briga entre as duas emissoras é expressão de uma nova fase da reorganização do capitalismo mundial.

Radioagência NP – Como você avalia o caso Globo versus Record?

Silvio Mieli – Não acho que a análise dessa briga cíclica entre a Globo e a Universal tenha que ser tratada somente do ponto de vista legalista, do enriquecimento ilícito dos dirigentes da Igreja, por exemplo. Teríamos que avançar um pouco. Não vou fazer uma separação entre essas duas empresas. Elas têm mais pontos em comum do que fatores que as distinguem. Elas atuam, segundo o meu ponto de vista, no mesmo mercado da capitalização dos corpos, das almas e do imaginário. Eu acompanhei o crescimento da Globo, desde pequeno eu assisto a emissora e, de vinte anos para cá, eu também acompanhei o crescimento das Igrejas Pentecostais. A imagem que tenho do fenômeno é de um arrastão, um arrastão político, social e do imaginário. Acho que os neopentecostais sacaram uma outra realidade e é isso que preocupa a Globo. Ela percebe que está perdendo terreno para um pessoal que está muito a frente na percepção de como o capitalismo funciona hoje.

RNP – E como o capitalismo estaria funcionando hoje?

SM – A partir do surgimento da Universal, nós passamos para um outro patamar. Ela eliminou intermediários, ela percebeu que o negócio era ir direto ao ponto. Foi exatamente o que aconteceu com as outras igrejas. Elas atuaram em outras frentes, atingindo outros públicos. Algumas atingiam mais a classe média, outras ficaram com os públicos C e D, mas sempre através da mesma prática: da ocupação de espaços existenciais, das carências e aproveitando essa falta crônica de espaços de socialização. Além do valor de uso e do valor de troca, que são velhos e bons conceitos marxistas, a briga entre essas gigantes [Globo e Record] evidencia esse terceiro elemento [ocupação do espaço das carências da população]. Sem entender esse elemento do capitalismo contemporâneo, fica difícil entender esse arrastão que elas [igrejas neopentecostais] fizeram.

RNP – Essa forma mais sofisticada de entender a atual fase do capitalismo seria, então, a diferença entre a Record e a Globo?

SM – Ambos são instrumentos de captura. Só que enquanto a Globo fisgava o telespectador por seu padrão de qualidade – essa coisa gigantesca que aprendemos a ter uma devoção quase religiosa, algo que está acima do bem e do mal –, a Universal, a Record, passou a capturar o fiel telespectador pelo dispositivo claro do culto ao dinheiro. Em ambos os casos, quem entendeu bem foi o [filósofo e sociólogo] Walter Benjamin, chamando o capitalismo de um fenômeno essencialmente religioso. [Para ele], havia uma relação entre religião e capitalismo. Essa relação está presente tanto na Globo quanto na Universal [Record]. Uma foi a fase gloriosa da Globo. Só que a outra é a fase que é exatamente essa área dos pentecostais, que potencializaram o modo de avançar sobre o imaginário.

RNP – Como a Globo está se posicionando diante desse quadro?

SM – É exatamente esse o motivo de desespero da Globo. Ela, mais do que qualquer outra empresa no Brasil, soube ocupar espaços. Isso vem sofrendo mudanças e essa ideia da Globo de ser a voz sagrada do país também está mudando. Existe ainda um aspecto de influencia da Globo muito grande, mas modificado e alterado. Existe uma tentativa da emissora de se aproximar da universidade de um modo assustador, fazendo parcerias para ver se consegue com instituições – que ela nunca deu bola na vida dela – fazer uma mudança de sua imagem.

RNP – Você afirmou que essa “guerra santa” é expressão de uma nova fase de organização do capitalismo no Brasil. Como os telespectadores podem reagir a isso?

SM – Eu acho que temos que nos aprofundar muito sobre isso, porque se não, sempre estaremos a reboque de um tipo de discussão que é pautado pelas empresas. Se nós não queremos participar desse mundo com um baixíssimo nível simbólico, temos que começar a entender o processo e colocar em prática uma outra lógica. Inclusive, com valores simbólicos de outra natureza: boas e velhas tradições culturais que, lentamente, podem colocar em prática uma nova estrutura. É minha visão otimista. Meu lado pessimista indica que essas coisas [a “Guerra Santa”] ainda vão crescer muito.

De São Paulo, da Radioagência NP, Aline Scarso.

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