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sábado, 29 de agosto de 2009

A TIRANIA DO AUTOMÓVEL EM UM PLANETA POLUÍDO


Comparação entre 60 cidades conclui: menos carros, menos problemas
“Quem escolhe investir em novas pistas de rodagem incentiva não só o uso do carro, mas uma ocupação da cidade baseada no círculo vicioso de congestionamento, poluição e stress”. A afirmação foi feita pelo especialista em cidades sustentáveis Jeffrey Kenworthy durante seu simpósio na 15ª Semana de Tecnologia Metroferroviária, dia 25, em São Paulo. O australiano Kenworthy é professor-convidado da Universidade de Frankfurt, na Alemanha, e há décadas vem alertando para os riscos do aumento descontrolado das frotas de carros em circução nas cidades, como ocorre no Brasil.

Em um de seus livros, “Sustainability and Cities: Overcoming Automobile Dependence” (Sustentabilidade e Cidades: Superando a Dependência do Automóvel, de 1999), Kenworthy compara dados sobre o trânsito e a qualidade de vida em 60 cidades do mundo. O resultado dessa comparação confirma uma ideia que parece óbvia: uma cidade se torna pior para seus moradores quanto mais carros houver nas ruas.

Segundo Kenworthy, as cidades com mais quilômetros de trilhos (sejam eles de metô, trem urbano ou veículos leves) oferecem não apenas transporte mais rápido, seguro e confortável. Elas são também as que menos desperdiçam recursos – o que vai de combustíveis a investimentos diretos do setor público, passando por horas trabalhadas e atração de novos negócios.

As cidades que pouco ou nada investem em trilhos, por outro lado, costumam ser aquelas em que as pessoas vivem pior e onde os governos arcam com mais gastos diretos. Além da despesa constante na manutenção das vias (do recapeamento à sinalização) há custos maiores com a saúde pública e o sistema judiciário: acidentes, atropelamentos e até brigas de trânsito que poderiam ser evitados deixam tanto os hospitais quanto os tribunais lotados. Além disso, as taxas de emissões de poluentes são sempre maiores onde há mais carros levando pessoas para o trabalho.

Em São Paulo, há 24 mortes no trânsito para cada grupo de 100.000 habitantes. A taxa supera a de homicídios no Brasil, uma das mais altas do mundo. Jeffrey Kenworthy entende que São Paulo está entre as cidades com os mais graves problemas de mobilidade. Mas não entende por que a prefeitura e o governo do Estado insistem em construir mais vias para a circulação de carros, como a obra que dará seis novas pistas à caótica Marginal do Tietê.

“As cidades têm uma dinâmica influenciada pelo próprio meio de transporte. Quanto mais avenidas, mais carros. E maior a distância entre as pessoas”. Ele afirma que as soluções radicais são possíveis. E dá alguns exemplos: “Em Nuremberg, quando a administração pública restringiu o uso do carro, 71% do trânsito desapareceu. Em Perth, 55% dos atuais usuários de trens urbanos são pessoas que andavam de carro – e simplesmente os abandonaram”, afirma. Segundo ele, ao deixar seus carros as pessoas circulam mais a pé, o que é bom para a economia da cidade pois fortalece o comércio local, baseado em pequenos estabelecimentos.


Sem carro, as pessoas tendem a reduzir seus deslocamentos, preferindo concentrar trabalho e lazer perto de onde moram. “Em Portland, Oregon, nos EUA, o uso misto foi expulsando os carros das ruas. As pessoas pediam mais espaço para andar a pé e de bicicleta. A solução foi deixar apenas uma linha de bonde no meio das ruas, ampliando as calçadas e criando ciclovias”. Não parece tão difícil seguir exemplos assim.

(Celso Masson)
* Título do post remete a livro indicado pelo IPETRANS na coluna da direita da página principal.

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