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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O agronegócio incendiário e racista

“Você quer ver, vem olhar aqui, tem quatro bugres mortos, vem ver!”,
o tom de deboche e ameaça era revelador de um quadro tétrico de
racismo e ódio que se julgava restrito às páginas da história de
extermínio das populações indígenas no continente e no mundo. Mas
naquela hora do meio dia de 18 de setembro, à beira da BR 486, a cena
era muito real. Enquanto uma integrante do Cimi fotografava o que
restou das casas queimadas, onde ainda a fumaça e pequenas chamas eram
visíveis, os agentes de segurança e peões da fazenda faziam uma cerca
para isolar o córrego e impedir o acesso dos índios, eles davam um
show de racismo. “Esses vagabundos tem mais é que morrer!”, exclamavam
enquanto repetiam sons de tiros para amedrontar a pessoa que estava
fazendo o registro de mais uma violência absurda contra a comunidade
Kaiowá Guarani do Apika’y, acampada há uns dez quilômetros da cidade
de Dourados.

Damiana, a líder religiosa, esteio do grupo que há mais de uma década
luta pelo pedaço de terra tradicional, já tendo sido expulsa diversas
vezes, mas que não desiste de ter um pedaço de terra tradicional para
viver, fazia o relato dramático da agressão sofrida pelo seu grupo
por volta de uma hora da madrugada. Em torno de dez pessoas chegaram
atirando sobre os barracos onde se encontravam dormindo os indígenas.
Um deles foi ferido na perna atingido por uma bala. No desespero,
várias mulheres foram atingidas pelos agressores com socos e pontapés.
Logo foram colocando fogo nos barracos, queimando com todos os
pertences dos indígenas. Documentos, roupas, bicicleta, lona, madeira,
tudo em pouco tempo estava reduzido a cinzas. Os Kaiowá
Guarani,indefesos e transtornados, viam mais essa cena de vandalismo.

Quando começou a clarear o dia, foram denunciar o fato e pedir
providências.Alguns foram para a Funasa pois estavam feridos. Outros
foram à FUNAI relatar os fatos e pedir socorro. Burocraticamente tudo
foi muito lento. A administração regional da FUNAI disse que sequer
conseguira que um dos procuradores do órgão registrasse a denúncia.
Foram então encaminhados ao Ministério Público Federal. Até o meio
dia, ninguém dos poderes públicos responsáveis havia chegado até o
local, que dista a uns dez quilômetros da cidade de Dourados.

Não fazia ainda uma semana quando há menos de cinqüenta quilômetros
daí, no município de Rio Brilhante, tivesse acontecido o despejo da
comunidade de Laranjeira Nhanderu e dois dias depois suas casas
queimadas pelos fazendeiros e sua milícia armada.

Tudo isso acontece enquanto os Kaiowá Guarani esperam ansiosamente a
volta dos grupos de trabalho para concluírem os trabalhos de
identificação dos tekoha, terras tradicionais deste povo.Quantas
violências, mortes, feridos, presos terão que suportar até terem suas
terras demarcadas conforme exige a Constituição e leis internacionais?
Sequer à beira das estradas os índios são tolerados. Querem vê-los
distante ou embaixo da terra para tranqüilizarem suas consciências.


Egon Heck

Cimi MS - Dourados, 18 de setembro de 2009

Um outro mundo é possível. Um outro Brasil é necessário!

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