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domingo, 13 de março de 2011

O CAIPIRA LOUCO CONFUNDE O SÁBIO


Crédito: Gustavo Baxter/divulgação

Ice Band, no Aglomerado Serra
Depois de um longo recesso, o mesmo motivo que me afastou deste Kizomba me traz de volta, com ânimos renovados e muita vontade de continuar lançando luz sobre os feitos da comunidade negra desta cidade, sobretudo a juventude que, por meio do hip hop e outras expressões, faz saltar aos olhos a riqueza de uma cultura que se renova a cada dia, a despeito de todas as adversidades sociais e econômicas.
Antes de tudo, preciso explicar minha ausência, para que todos possam entender meu silêncio, diga-se, provisório. Em 28 de novembro do ano passado, meu marido, Hudson Carlos de Oliveira, foi covardemente espancado diante de um bar, em Santa Efigênia, numa tarde de domingo, depois de assistir a uma apresentação de teatro de bonecos na praça. O motivo alegado pelos agressores foi que ele se aproximou do garçon que preparava churrasco para uma festa particular que ocorria nas dependências do bar, com mesas na calçada. De fato, Hudson se acercou ao garçon, mas para cumprimentá-lo, já que se conheciam. E ouviu do aniversariante: “sai fora que você não vai comer da carne que eu comprei”. Diante da insistência de Hudson em acabar de cumprimentar o amigo, o aniversariante - um jornalista - não apenas o espancou como foi ajudado por outros cinco que desfrutavam da festa, sob os incentivos do pai do cicerone: “mata que é bandido”.
Deficiente visual, que não enxerga com o olho esquerdo, e com mobilidade reduzida em um dos braços e uma das pernas, Hudson sofreu duas fraturas na mandíbula e na escápula, das quais os agressores devem se orgulhar, uma vez que não estão detidos e bastante tempo passará até que eles sejam julgados. São as normas de uma justiça que não tem pressa.
A repercussão do caso nos meios de comunicação fez chegar a notícia a boa parte dos amigos de Hudson, conhecido como rapper Ice Band, inclusive fora do país. Mediador de conflitos no Aglomerado Serra, ele é autor e realizador do projeto Hip Hop - Educação para a Vida, que circula por escolas públicas municipais. Ele conversa com crianças e adolescentes sobre a necessidade de superar a cultura da violência em favor de uma sociedade melhor, menos intolerante e pela formação de cidadãos em condições de compreender que o diálogo, a liberdade de expressão e a arte são tão essenciais ao humano quanto o alimento de todos os dias.
A verdade com que Hudson defende estes ideais não o fizeram imune à intolerância social e racial, que governa Belo Horizonte e todo o país. Ao contrário, o colocam na linha de frente de uma disputa silenciosa e perversa. De um lado, estão os que acreditam que o espaço público pertence a uma parte da sociedade. De outro, os que se recusam a aceitar a vigência de normas que contradizem a Constituição Federal e todas as conquistas da luta pelos Direitos Humanos neste país.
Como companheira e mãe de seu filho, ofereci a Hudson o conforto que estava ao meu alcance. Dias de tensão e angústia em hospital público eficiente, mas fétido, desorganizado e deprimente. Noites em claro tentando atender advogado, imprensa, amigos, familiares e todos que tinham o direito e a necessidade de entender o ocorrido. Iniciamos a campanha Desarme a violência em você, que entre outras ações coloriu muros da cidade com performances de grafiteiros. Além da proteção essencial à saúde psicológica de nosso pequeno filho que, com apenas cinco anos, ainda não merece saber que os covardes existem e do que são capazes em nome de falsas verdades, contra as quais lutamos com veemência.
Por estas e outras razões, me afastei do Kizomba. A tristeza me cegou e não tive força para enxergar além do imediato. E, mais uma vez, veio do próprio Hudson o alento. Fisicamente recuperado, ele retoma o Educação para a Vida no final do mês, prepara seu segundo CD de rap, e tem encontro marcado com centenas de rappers, b.boys, grafiteiros, DJs, e militantes do hip hop, além dos inúmeros amigos dos movimentos sociais e populares, no Duelo de MCs, debaixo do viaduto de Santa Teresa, dia 1 de abril à noite.
Ele subirá ao palco com a força que o fez vencer muitas outras dificuldades, sem renunciar à sua identidade. Hudson não pretende deixar de usar boné de aba reta, calça larga e tênis bola, tampouco deixará se dissipar sua alegria somente porque a felicidade de um negro e favelado incomoda muita gente. Apesar de tudo, ele não tem medo. Acredita na vida, no sonho, na liberdade, e em todas as conquistas anunciadas, que infelizmente não comprovamos na prática, mas que não desqualificamos.
Por tudo que Hudson representa para esta sociedade, peço licença e inicio, então, nova fase do Kizomba, dedicando a ele este momento. Ice Band tem muito a nos ensinar, com boa dose de humor e alguma acidez. O caipira louco há de continuar confundindo sábios, por mais alto que seja o preço a pagar. Felizmente, não estamos sós.

Obrigada aos centenas de artistas, jornalistas, gestores culturais e amigos sinceros que assinaram com presteza à Moção de Repúdio contra este ato de violência. Jaque, Blitz, Angélica, T-Julim, Iza, Ana, Budog, Lelo, Adriana, Admar, Flávio, Família Centro de Referência Hip Hop Brasil, Nozpegaefaz e U Comboio, Favela É Isso Ai, Oficina de Imagens, Silvana, João Paulo, Josué Canda, Lili, Élcio, Família de Rua, MV Bill, Mano Brown, Bill MPC, Pedro Otoni, Solanda, Lúcia Camargo, Rodrigo Barroso, Joviano, Nanda, Brigadas Populares, Vinícius Calazans e tantos outros: sem palavras...

Crédito: Élcio Paraíso/divulgação

Rapper Blitz em evento de repúdio à agressão contra Ice Band, no Duelo de MCs

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